Timeline do Facebook
South Park: Facebook
Parte I:
Parte II:
Narcisismo no Facebook
Colunista da Folha de S. Paulo
Publicado no Caderno Ilustrada – Folha de S. Paulo
Faço parte do que o jornal britânico “The Guardian” chama de “social media sceptics” (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado “sombrio” do Facebook (22/3/2012).
Ser um “social media sceptic” significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na “história”, sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.
As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.
E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.
Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico “A Cultura do Narcisismo”, um livro essencial para pensarmos o comportamento no final de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.
Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o “outro”, apenas exigindo do mundo um amor incondicional.
Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, “um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros” marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no “Face”.
A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no “Face”. Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços “tóxicos” (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no “Face” a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.
Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.
Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso…), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma…), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.
Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle. O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de “amigos” irreais. O dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do “Face”.
Portanto, a “culpa” não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal “matéria” da escola. A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade.
Publicado em: http://www.revistapontocom.org.br/artigos/narcisismo-no-facebook
O efeito Facebook
Título: O efeito Facebook: Os bastidores da história da empresa que conecta o mundo
Autor: David Kirkpatrick
Editora: Intrinseca
Valor: R$39,90
Facebook: o achatamento de nossas vidas
Por José Vitor Malheiros
Não é preciso ser Fernando Pessoa nem sofrer de personalidade múltipla para ser várias pessoas. Todos somos várias pessoas. Todos temos várias versões do nosso eu, várias personae, que activamos e desactivamos ao longo do dia conforme as circunstâncias e os interlocutores, que modulamos automática mas precisamente no espaço de uns segundos, de forma a obter o máximo benefício possível das nossas interacções com os outros. Não mostramos a mesma personalidade quando falamos com a nossa namorada ou com o pai da namorada. Não falamos com os nossos filhos como falamos com o nosso chefe no trabalho. Não contamos as mesmas anedotas à nossa mãe e aos colegas do trabalho. Nem sequer somos os mesmos com os amigos do futebol e os amigos da universidade. O nosso tom de voz muda, a atitude corporal muda, o olhar, as interjeições, o léxico, a maneira de rir.
Vivemos bem com esta multiplicidade de eus. Satisfaz-nos as várias facetas da personalidade. Podemos ser reflectidos e atrevidos, tímidos e espalhafatosos, sérios e brincalhões, prudentes e aventureiros, serenos e frenéticos, todas essas coisas que todos somos.
Na vida real podemos ser uma coisa para cada pessoa, uma pessoa para cada circunstância. Sem que cada um saiba como somos para os outros. Mas nas redes sociais tudo muda.
E muda porque na web usamos apenas uma personalidade. Sim, é verdade que podemos criar vários avatares, heterónimos com vidas próprias, cada um com os seus gostos e idiossincrasias, mas só quem tenha realmente tentado fazê-lo sabe como isso é difícil de gerir. Tão difícil que rapidamente se abandonam os heterónimos. Quando comecei a usar o Facebook também o tentei fazer, criando um perfil profissional e outro pessoal – muita gente que ainda o faz – mas a dificuldade começa na definição das fronteiras. Os dois mundos têm demasiadas intersecções, há demasiadas coisas que queremos partilhar com ambos. E há muitas coisas que só queremos partilhar com um subconjunto de um desses mundos, ou com um subconjunto dos dois – os que são do nosso clube, os amantes de poesia… É demasiado complicado, ingerível. Enganamo-nos, publicamos isto sob a personalidade do outro, trocamos amigos. Exige a paciência de um obsessivo e mais tempo livre do que temos. Começamos a meter as mesmas pessoas nas duas redes e os dois grupos acabam por ficar iguais um ao outro, acabamos a assumir que somos só um, com tudo ao molho, com amigos que não se falam uns aos outros, cheios de contradições e gostos heterogéneos.
Na vida real podemos dizer tudo mas apenas uma parte a cada um. Nas redes dizemos tudo a todos, ao mesmo tempo. Há um achatamento de todos os planos da nossa vida num único, como quando fazemos flatten num programa de desenho. Sim, é possível seleccionar, criar grupos, definir privilégios, escolher com quem se partilha o quê – mas, mais uma vez, já o tentaram fazer? É possível, mas trabalhoso. Acabamos sempre por concluir que não vale a pena. Para quê? Não temos nada a esconder!
Esta é, para mim, uma das principais características do Facebook: a perda (relativa, não absoluta) da multidimensionalidade das nossas relações. Quando falamos no Facebook dizemos mais do que gostaríamos, porque dizemos tudo a todos. Claro que satisfaz o nosso voyeurismo (“Olha, a Maria faz culturismo!”) e claro que há demasiada informação para que toda a gente repare em tudo o que nos diz respeito. Estamos relativamente protegidos pela densa nuvem de dados. Mas com um mínimo de atenção uma pessoa conhecida mas com quem habitualmente não partilharíamos informação conhece todos os membros da nossa família, onde trabalham e quando fazem anos, conhece as nossas ideias políticas, paixões clubísticas, preferências políticas e literárias, o que fazemos nas férias, que livros lemos, que filmes vemos e, claro, quem são os nossos amigos, colegas e conhecidos. E isto quando se trata de um amador. Porque um bom programa de data mining, daqueles que são usados pelos serviços de informações, consegue escavar mais fundo e concluir, pela análise textual do que escrevemos e pelo nosso ciclo de actividade online, quase tudo o que nos passa pela cabeça (estado de saúde, estado de espírito). Se tivesse Facebook George Smiley nunca teria precisado de sair de Oxford.
Qual é o problema? Para começar há (terríveis) problemas de privacidade. Há quem anteveja nos próximos anos uma epidemia de abusos em relação aos adolescentes de hoje que, impensadamente, se habituaram a viver na rede, em estado de e-comunitarismo total e permanente, partilhando pormenores íntimos e fornecendo, sem o saber, dados que podem prejudicar seriamente a sua possibilidade de obter uma bolsa, de conseguir um emprego ou uma promoção, de ter um empréstimo do banco, de fazer um seguro de saúde, etc. Pode não se tratar de algo muito violento. Numa sociedade relativamente aberta e com algumas protecções democráticas, como aquela em que ainda vivemos, isso pode não significar risco de prisão por crime de opinião ou condenação ao ostracismo devido às preferências sexuais. Mas significa que certas pessoas, com algumas fragilidades (uma tendência para a depressão, uma vida amorosa infeliz, uma família disfuncional, uma linguagem pouco cuidada, amigos pouco recomendáveis, atitudes demasiado assertivas, preferências heterodoxas de qualquer tipo, sejam elas vestimentárias ou alimentares), podem ter uma vida um tudo-nada mais difícil que as outras. Pode ser uma coisa estatística, um desvio ligeiro. Mas isso, ao longo dos anos, pode ir empurrando pessoas com determinadas características para novos guetos – bolsas de desemprego, de menor protecção social, menos acesso a todo o tipo de bens.
Mas isso não é tudo. Este achatamento dos vários planos da nossa vida numa comunicação cândida do que fazemos, pensamos, gostamos e desejamos, numa esfera aparentemente global, padece de dois defeitos: ela nem é suficientemente privada, nem totalmente pública, situando-se num limbo vago de meias-tintas relacionais e sociais.
O que estaremos a perder com esta insuficiência de intimidade, com esta escassez de silêncio, de recolhimento, de reflexão íntima, de modéstia, de introspecção, com estes novos hábitos de pensar-dizer e de sentir-dizer que se instalaram na juventude? Não sei. Mas receio que algo se perca de importante.
Por outro lado, se comunicar no Facebook é comunicar num novo “espaço público”, de infinitas e interessantes possibilidades, esse espaço é, de facto, fragmentado. Um conjunto de bolhas, que se intersectam e onde existem inúmeros vasos comunicantes, é certo, mas mundos independentes. Se é certo que se pode lançar uma informação no Facebook que dá a volta ao mundo num dia, é igualmente verdade que muito do que se passa aqui é absolutamente opaco para o mundo. É por isso que, apesar do Facebook, a imprensa e o jornalismo continuam a desempenhar um papel fundamental, na criação de um verdadeiro espaço público, verdadeiramente aberto a todos e partilhável por todos.
Publicado em: http://www.publico.pt/tecnologia/noticia/facebook-o-achatamento-das-nossas-vidas-1573410
Empresas da Internet em estilo retrô
Por que o Google Glass não é o futuro que precisamos
Por Pedro Burgos
O brinquedo tecnológico mais falado de 2012 não é um videogame, um iQualquer coisa ou o tablet da Microsoft, e sim o Google Glass. Porque nada parece tão 2030 quanto um computador-com-tela-acoplada-aos-óculos. Nos grandes jornais e portais, ele sempre é tratado como os “óculos do futuro”, e os efeitos especiais do primeiro vídeo de apresentação fez fãs de Homem-de-Ferro criarem grandes expectativas. Faltava vê-lo funcionando na prática. Na última semana, em seu grande evento anual, o Google poderia ter gastado todas as forças no novo tablet com um custo-benefício incrível, ou a versão para Android mais rápida e bonita, mas a gigante preferiu gastar muitos, muitos minutos e uma surperprodução digna de Michael Bay para anunciar que o Glass já estava mais ou menos funcionando, e estaria disponível para alguns desenvolvedores em algum momento de 2013 por US$ 1.500. Os fãs suspiraram, decepcionados, porque queriam o futuro agora. Eu não. Espero que ele morra o quanto antes, na fase de projeto. Para o bem da humanidade.
Eu já tinha minhas reservas em relação ao Google Glass, mas parecia estar sozinho nas críticas: a reação geral dos comentaristas à notícia dos óculos com um HUD era maciçamente positiva. E quem colocava em dúvidas o sentido do Glass ganhava logo a resposta automática que me fez parar de ter vontade de escrever sobre tecnologia: “Se fosse da Apple, você chamaria de mágico”. O argumento mais elaborado vinha na forma de “não podemos criticar o futuro sem saber como é” ou algo assim. Mas bom, acho que podemos criticar uma visão de futuro.
As pessoas de hoje (ao menos as que comentam na internet), parecem tão acostumadas a ter a atenção dividida que querem incorporar este modus operandi a todas as horas acordadas. Se assistimos ao Oscar e tuitamos no smartphone ou jogamos videogame prestando atenção em inúmeros contadores, nada mais normal que um picture-in-picture da vida real. “Pense nas possibilidades! Isso sim é revolucionário!”, diriam os mais empolgados, querendo aumentar o alcance da realidade aumentada.
Pensando videogamísticamente, é claro que há uma real utilidade para o Google Glass em algumas situações: médicos poderiam se beneficiar vendo, durante uma cirurgia, tanto as reações do paciente quanto a microcâmera dentro de uma incisão; militares ou policiais de forças especiais poderão receber informações visuais críticas mantendo o foco no que está à frente. Talvez engenheiros, biólogos e outros consigam usá-lo em situações profissionais, muito específicas e temporárias. Para mim, o ideal é que tudo funciona da mesma forma que um capacete de piloto: acabou o uso, você tira. Como o capacete de piloto, aliás, a ideia está muito longe de ser nova. Em um artigo de 1945, o engenheiro Vannevar Bush escreveu um artigo imaginando um futuro em que os cientistas usariam óculos capazes de fotografar automaticamente “tudo que fosse digno de registro”. Quando estiver funcionando perfeitamente, é o que o Glass pretende fazer.
Mas o que vimos na apresentação cheia de pirotecnia também não foi nada muito novo: pessoas com capacetes ligeiramente menos embaraçosos que registravam coisas “dignas de registro”. O uso demonstrado, de pessoas saltando de para-quedas e andando de bicicleta enquanto transmitiam as imagens para o mundo não foi muito diferente de uma câmera de ação no capacete com um modem nas costas (os paraquedistas tinham roteadores na mochila). Não entendo como uma câmera menor nos óculos pode ser tão incrivelmente diferente ou revolucionária. Mas pelos aplausos e comentários insanamente empolgados em blogs alhures, as pessoas aparentemente acham isso divertidíssimo e o querem hoje.
Mas o problema para mim é que ao fim da demonstração, os Googlers não tiravam os óculos. O que me incomoda profundamente na visão de futuro do Google é que eles acham que alguém fora Sergey Brin gostaria de usar isso o tempo todo. Um futuro assim é perturbador. Por vários motivos.
Privacidade e novas regras sociais
Ninguém se comporta naturalmente quando se depara com uma câmera ou um gravador. Mudamos a voz para falar, confidenciamos menos, somos mais atentos ao que fazemos, menos espontâneos – à exceção, talvez, de certos participantes da Fazenda. Agora, imagine encontrar um amigo com um mecanismo de transmissão na cara. É óbvio que as pessoas não reagirão naturalmente. Babak Parviz, o chefe do time do Glass, é polianamente otimista, e disse ao AllThingsD que a “etiqueta digital” vai evoluir, com as pessoas se acostumando a alertar as outras que estão gravando. Será que todos ficarão com a síndrome-do-tio-chato (que manda todo mundo sorrir pra fotos o tempo todo no Natal)? No mundo real, pelo que eu conheço da natureza humana, a graça vai ser justamente gravar sem o conhecimento do fotografado. Se o Glass vingar, espere uma profusão ainda maior de galerias de creep shots (no Brasil, os tais flagras de meninas com roupa de academia e coisas assim), como essa do reddit. Parece divertido pra você? Pense em outros desdobramentos.
Em setembro de 2010, Dharun Ravi, de 20 anos, tuitou: “Meu colega de quarto me pediu o quarto até a meia noite. Eu fui ao quarto e liguei a webcam. Eu o vi transando com um cara. Yay.” O seu tímido recém-chegado colega de quarto da Universidade de Rutgers, Tyler Clementi, 18 anos, obviamente não sabia que seu encontro estava sendo transmitido via um Justin.tv da vida. Três dias depois, Clementi se suicidou, num caso que provocou amplas mudanças na lei e campanhas nas universidades americanas. Sim, é um caso extremo com uma reação extrema. Mas pense de novo no caso das fotos e vídeos de “ex-namoradas” que vazaram. Há inegáveis estragos sobre as vítimas. Agora pense numa ferramenta que permite tornar isso incrivelmente mais fácil e discreto, que precisa de zero tempo de setup e onde o xeretado não fica sabendo. Você pode ser uma pessoa de bem, mas nós como sociedade estamos preparados para usar isso de maneira responsável?
Pouco depois do suicídio de Clementi, Walter Krin escreveu no New York Times que George Orwell imaginou o “futuro” (os nossos tempos atuais) de maneira bem mais simples há 60 anos, quando escreveu 1984. Para Krin, em vez de termos um “Big Brother” que vigia todos, temos um exército desorganizado de Little Brothers, que não precisa de uma ditadura para criar um estado de vigilância. “A invasão da privacidade – de outras pessoas mas também de você mesmo, enquanto nós apontamos as nossas lentes para a gente na busca pela atenção a qualquer preço – foi democratizada.” O artigo fala da profusão de webcams e câmeras no celular que nos taggeiam em fotos embaraçosas no Facebook ou vídeos no Youtube. Queremos, de novo, um aprofundamento deste problema?
Poucas vezes o The Onion falou tão sério quanto neste vídeo onde um diretor da CIA diz que o Facebook reduziu os custos dos espiões.
Já temos imagens o suficiente, obrigado
Ontem de manhã o Instagram ficou fora do ar. No Twitter, começaram as piadas, do tipo “A comida vai esfriar. O Instagram precisa voltar pra eu tirar foto”. Ou “como vou aproveitar o dia de sol em São Paulo sem o Instagram?” Alguns acharam uma forma.
A piada do #instagramporescrito expõe nosso vício em compartilhar imagens o tempo todo. Há imagens lindas, mas há imagens sem contexto, imagens banais, imagens importantes que se perdem no meio de mil outras. Não sou contra o Instagram, pelo contrário: eu adoro o negócio. Mas dificilmente posto mais de uma foto por semana e sigo bem pouca gente. O ponto, no Instagram e em qualquer outra tecnologia, é saber como usá-la e saber até que ponto ela é boa: se você se vicia em likes e compartilhamentos, pode ficar extremamente ansioso se ficar sem (algumas pessoas que conheço morreriam sem o 3G); da mesma forma, seus amigos podem perder interesse nas suas histórias genuinamente interessantes quando elas se perdem entre 80 mil updates banais. Não é fácil achar o equilíbrio.
A discussão sobre o poder e o excesso do uso da imagem, obviamente, também não é nova. Em 1890, por exemplo, quando uma foto não autorizada do casamento da filha de Samuel Warren, um advogado inglês, foi publicada, os advogados reclamaram da revolução industrial, de como as fotos estavam “invadindo a privacidade”. E nos anos 1970, Susan Sontag já decretava que “viajar se tornou uma estratégia para acumular fotos”. Sobre isso, Sherry Turkle, do espetacular “Alone Together: why we expect more from technology and less from people” (Sozinhos, juntos: por que esperamos mais da tecnologia e menos que das pessoas), se pergunta:
“Na cultura digital, será que a vida se torna uma estratégia para estabelecer um arquivo? Pessoas jovens moldam a vida para produzir um perfil de Facebook que impressiona. Quando nós sabemos que tudo em nossas vidas é capturado, será que vamos começar a viver a vida da forma que sonhamos ser arquivada?”
A pergunta parece exagerada, mas o Instagram por escrito e o fato de as pessoas esconderem Lady Gaga de seu Last.fm faz a reflexão necessária: a nossa capacidade de registrar e transmitir ao mundo não têm o poder de moldar sutilmente nossas atitudes? Quando estivermos com um aparato que marca cada passo nosso e registra cada imagem que passa pelas nossas retinas, será que este estímulo narcisista não ficará ainda mais poderoso e irresistível?
Pelo histórico e a lógica de negócios do Google, o constante registro e arquivamento da nossa vida – e não o uso ocasional – parece ser o objetivo do Glass: das buscas registradas no Google aos lugares que marcamos no Maps ou fotografamos para o Picasa, tudo é informação relevante para a empresa de Mountain View vender o seu principal produto: nós todos. Parece papo conspiratório, mas 98% do dinheiro que o Google ganha vem da publicidade. Os esforços para aumentar o alcance de sua rede G+ são justamente uma reação ao Facebook: a rede de Zuckerberg sabe cada vez mais detalhes sobre nós, e pode vender anúncios mais direcionados, mais valiosos. Vale a autocitação? O que eu acho importante:
“Ninguém quer usar o Google+, porque os amigos estão todos no Facebook – ou fora das redes sociais. Mas o Google precisa do social. Então por que não criar um outro mecanismo, tipo óculos que coletam informações pessoais ainda mais íntimas e específicas, que as pessoas ainda estejam com vontade de pagar uma grana razoável para ter? No papel, parece o sonho da grande empresa de publicidade que é o Google. E, como tudo que vem da empresa, as pessoas parecem ok em ceder muitas informações pessoas para ter um serviço gratuito ou muito barato em troca. O acordo tem funcionado.”
Mas mesmo para quem tem a visão romântica de que o Google é uma empresa “do bem”, seguindo uma “visão” de seus fundadores de não fazer o mal e que, ao contrário de todas as outras, seu objetivo principal não é o lucro, mas sim evoluir a tecnologia da humanidade e o acesso ao conhecimento. A pergunta permanece: pra quê colocar na rua este trambolho? De que maneira ele melhora – somando as facilidades e subtraindo os problemas – a nossa vida? O motivo pode ser trivial: muitas das coisas que o Google faz não tem o uso de pessoas normais ou os benefícios sociais levados em consideração em primeiro lugar. É uma empresa excessivamente de engenheiros, para aficionados por tecnologia. Mas o Google Glass especificamente é de longe o pior exemplo disso.
Acompanhe a apresentação do produto. A dupla de engenheiros-criadores cita várias situações em que o Google Glass iria “mudar nossas vidas” e para cada uma delas eu tinha uma resposta.
Vale ver, não só pra ficar mais claro quão socialmente ineptos são os criadores do Glass, mas para tentar entender a argumentação.
* “Um cara do nosso grupo postou essa foto dele chegando de uma corrida, que não seria possível sem os óculos”. Minha resposta: Alguém precisa disso? O tanto de “Eu completei uma corrida com o Nike+” na minha timeline não é suficiente? Pra que ele precisa de ter essa imagem?
* (Mostrando uma pessoa consultando o celular enquanto outra fala alegremente) “Estamos acostumados a nos abaixarmos para olhar no celular no meio da conversa, consultar coisas, e isso é incrível. Mas tira você ‘do momento’. Não com o Glass.” Todas as saídas para o bar que fiz onde rolou um Phone Stacking foram seguramente mais divertidas. Não é porque o cara vai checar o email ou fazer check-in “pelos óculos” que a coisa vai ser menos mala. Ele vai continuar longe.
* (Vídeo em primeira pessoa de alguém andando de mountain-bike) “Pense nas possibilidades: o ciclista pode saber a velocidade que está sem perder o contato com a natureza”. É obviamente um engenheiro que não toma sol falando de algo que não sabe. Todos os amigos que conheço que curtem andar de bicicleta (eu inclusive) querem mais é justamente curtir a natureza e o momento, sem muitas interferências que podem ser, inclusive, perigosas.
A lista segue. “Olha como é mais fácil tirar fotos de crianças” – como se alguém precisasse de ainda mais fotos de bebês. Fora um exemplo dos óculos fotografando o passo-a-passo de uma receita (é bem mais fácil se você quer cozinhar e ensinar para outra pessoa), não consegui ver uma única coisa genuinamente boa, quanto menos necessária. No fim, eles jogam a bola para os desenvolvedores, dizendo que estão ansiosos para “as funcionalidades incríveis que vocês vão criar”. Porque até agora não rolou uma única, ele quis dizer.
No vídeo original de divulgação, vi coisas interessantes. É, sim, romântico cantar pra namorada compartilhando a sua vista do por do sol. Mesmo. Estar longe e aparecer em um Hangout, Skype, Facetime ou qualquer coisa para as pessoas importantes é realmente legal, possivelmente mais legal que um telefonema. Mas há alguns motivos para a videoconferência não ter pegado até agora. Quando ela vira rotineira, há dezenas de problemas que evidenciam como a simulação de realidade está muito longe da realidade em si e criam um desconforto. Poderia me alongar um bocado nisso e um dia prometo fazê-lo, mas por ora leia depois este artigo da GQ.
Alguém sabe o efeito disso no nosso cérebro?
A ideia do Glass é colocar o visor acima do olho para que você “continue no lugar, mantendo contato visual com as pessoas”. Essa explicação dos engenheiros soa bonitinha, mas é tão primária e desinformada em relação ao entendimento do cérebro humano que me deixa dúvidas se alguém fora da área de exatas esteve perto do projeto em algum de seus dois anos e meio de desenvolvimento. Podemos começar a desmontar a visão deles só pensando sobre olhar pra frente, especificamente: você já percebeu que quando temos algo difícil ou importante para falar a uma pessoa é bem comum dar pausas mais longas e olhar um pouco para baixo ou para cima? Isso não é particular dos tímidos. Acontece que simplesmente olhar na cara de uma pessoa é mentalmente trabalhoso. Temos que decifrar o que as expressões dela querem dizer, interpretar um leve sorriso e associar a memórias. Precisamos dar uma pausa nesse fluxo de informações quando estamos tentando organizar um pensamento mais complexo, concatenar as ideias na nossa cabeça antes de falar. Da mesma forma, quando estamos perdidos em algum lugar com o carro abaixamos o volume do som instintivamente. Sergey Brin acha que o Glass vai interromper menos a gente. “Porque quando você está segurando um telefone e olhando pra baixo está tirando você do ambiente à sua volta”.
“A solução, Brin, é olhar menos para o telefone e prestar mais atenção ao ambiente. Não colocar a tela do telefone na nossa cara.”
É bem verdade que por questões evolutivas, o nosso cérebro se dá razoavelmente bem em lidar com estímulos paralelos: conseguimos dirigir numa rota conhecida, conversar e notar um cheiro esquisito ao mesmo tempo. Nem somos tão bons assim em foco, aliás. Mas isso não quer dizer que interrupções constantes e muitas informações ao mesmo tempo são boas. Pelo contrário: há um número crescente de evidências científicas que mostram que o excesso de informações e a falta de pausas entre os estímulos prejudica a nossa compreensão. A questão é amplamente examinada em estudos no livro A geração Superficial, de Nicholas Carr. Neste artigo da Wired ele elenca diversas pesquisas que comprovam que, por exemplo, um texto sem hyperlinks aumenta a compreensão em relação ao assunto tratado em comparação ao mesmo texto cheio de armadilhas para que as pessoas saiam da página. É uma questão de educação, é claro. Eu espalhei este monte de links no texto como referência, mas eu leio tudo antes para não perder o fim da meada, antes de clicar em algo, e espero que vocês façam o mesmo.
A ideia do Glass é espalhar links nas coisas de verdade. De novo: alguém estudou os efeitos no cérebro das nossas atuais tecnologias antes de propor algo que favorece ainda mais a multitarefa alucinada? O campo de pesquisas do impacto da tecnologia no nosso comportamento ainda é bastante novo, mas em um livro lançado há poucos meses, o médico Larry Rosen, dos maiores estudiosos do assunto, propõe que muitas pessoas, especialmente os mais jovens, sofrem de o que ele batiza de “iDisorder” (uma doença referente à Apple, caso você não tenha pescado a sacadinha). A moléstia moderna seria uma soma de outros transtornos psiquiátricos, do narcisismo à depressão passando pelo Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Rosen argumenta, baseado em diversos estudos recentes, que as novas tecnologias, especialmente os smartphones conectados a email, SMS e redes sociais o tempo todo potencializa qualquer predisposição a essas condições. Afirma o pesquisador:
“Enquanto uma porcentagem da população foi diagnosticada com este transtorno, nossa dependência em tecnologia, a disponibilidade da internet 24 horas por dia, 7 dias por semana e nosso constante uso de dispositivos faz com que todos nós nos comportemos como se tivéssemos TDAH.”
Nosso cérebro está sempre se adaptando, é verdade, mas qual é o limite? Até quando conseguiremos lidar com tanta coisa ao mesmo tempo? Como ele vai saber que o email que precisamso responder tem prioridade sobre a 49ª partida de SongPop do dia? Eu diria que muitos já passaram um bocado do limite do sustentável pelas nossas mentes. Além de distrair mais ainda a privacidade institucionalizando os Little Brothers, o Glass é um prato cheio para potencializar as distrações. Queremos isso? Eu dizia secretamente que um dos grandes trunfos do iPad, no início, era que ele não tinha multitarefa. Depois do iOS 5, ficou muito mais difícil ler livros nele. Se a narrativa ficava chata por 3 parágrafos, apertava o home e ia jogar qualquer coisa ou clicar em uma notificação que aparecia em cima, sem nem pensar. Nós queremos ter controle, e até estou aprendendo algumas técnicas, mas no fundo somos fracos.
E, veja, estou apenas tocando algumas das possíveis implicações fisiológicas. E em relação à nossa visão? É claro que o modelo de telinha ainda vai evoluir muito, mas quão saudável é ficar alternando o foco para algo próximo? Muitos de nós já temos a Síndrome da Vibração Fantasma (quando sentimos o celular vibrando, mesmo quando ele não está), mas e quando nos acostumarmos com alertas, vamos ver pontos mesmo quando eles não existirem? E o impacto de terceirizar boa parte do nosso conhecimento, de maneira mais prática e instantânea? Além de diminuir o valor de pessoas como o PVC, o excesso de confiança em fontes externas de conhecimento diminui a nossa individualidade e nossas opiniões sobre tudo – ainda mais quando o filtro da busca é justamente as nossas pesquisas anteriores. De novo: isso já é um problema atual, que apenas se aprofundaria se a visão do Glass-cotidiano vire realidade.
A resistência é fútil?
É difícil atacar tão fortemente uma “grande inovação tecnológica” sem ser tachado de ludita, anti-tecnologia, velho ou coisa pior (se a evolução é do Google, você é Fandroid. Se a evolução é da Apple, obviamente você é pago pela maçã). Mas eu fiquei 3 anos escrevendo diariamente sobre a evolução tecnológica, além de pesquisar profundamente o assunto para o meu livro (nas livrarias em novembro, se tudo der certo! =)) e acho que tenho algum direito de pensar “ei, isso não é desejável” quando vejo coisas como o Google Glass, por todos os motivos levantados acima. O único outro artigo que vi atacando a invenção é o de Jolie O’Dell, do Venture Beat:
“O Glass, como mostrado hoje, é mais um perturbador passo em direção à web de conectividade toda-social, sempre-ligada, que não é um meio para um fim, mas uma causa e consequência em si mesma. É o ideal da mente coletiva que, em muitos aspectos, já chegou.”
No fim, Jolie concede que “A resistência é fútil”, que o negócio será lançado e será um sucesso. Eu gostaria de poder parar o desenvolvimento do Glass ou pelo menos redirecioná-lo fortemente, mas minha opinião não tem todo esse alcance. E, de todo modo, há poucos indícios de que corrigiremos o curso para algo menos ultraconectado – acho a chegada do botão “não perturbe” no iOS 6 um micropasso nessa direção. Em um dos melhores livros sobre inovação tecnológica, What Technology Wants (O que a Tecnologia Quer?), Kevin Kelly compara a nossa dependência atual com nossos aparatos a outras relações biológicas do reino animal. Em 2010, ele profetizava:
“Está muito claro que nós estamos criando uma memória simbiótica com a internet e as tecnologias Googlianas. Quando o Google (ou um de nossos descendentes) for capaz de entender perguntas faladas naturalmente e estiver vivendo em uma camada das nossas roupas, nós rapidamente absorveremos esta ferramenta em nossas mentes. Nós dependeremos dela, e ela vai depender de nós – tanto para continuar a existir quanto para ficar mais esperta, porque ela depende de mais gente usando para melhorar a sua compreensão. Algumas pessoas acham essa simbiose assustadora, mas não é muito diferente do nosso uso de papel e lápis em uma longa divisão.”
De fato, a tecnologia precisa da gente. Pensando apenas economicamente, é razoável dizer também que o Google precisa de cada vez mais informações nossas para ganhar dinheiro com publicidade e espantar o Facebook do mercado de anúncios ultradirecionados. O Glass será uma excelente arma, sedutora para muitos de vocês. Mas será mesmo que a resistência é fútil? No livro, Kelly fala que há poucos exemplos de uma tecnologia disruptiva que foi rejeitada ativamente por um povo. O maior deles? Por questões complexas que passam pelo código de honra samurai, o Japão foi o último país do mundo razoavelmente desenvolvido a adotar a pólvora: seu atraso em 200 anos para usar a tecnologia facilitou a derrota em algumas batalhas, é verdade. Mas é impossível dissociar esse histórico ao fato de que hoje a sua polícia não usa revólveres e a sua taxa de homicídios por armas de fogo é ridiculamente baixa. No Japão, 43 pessoas morreram com um tiro em 2002. Em Maceió, 15 foram baleadas fatalmente em um único fim de semana deste ano. Quão melhor seria a nossa sociedade se tivéssemos rejeitado totalmente essa tecnologia?
Estamos acostumados a usar um bocado antes uma tecnologia sedutora e avaliar/limitar o uso bem depois, quando a situação começa a ficar incontrolável: vide o exemplo do privilégio do carro nas grandes cidades. Este não é o único caminho. Será que podemos parar um pouco para pensar se queremos mesmo que uma empresa que literalmente lucra com a nossa falta de privacidade coloque um computador do qual não podemos desviar o olhar na nossa frente o tempo todo? Com uma câmera que captura tudo à nossa frente? O freio seria bom. Podemos começar a discussão civilizadamente aqui embaixo, queria ouvir a opinião de vocês e esclarecer algumas das minhas.
Publicado em: http://jezebel.uol.com.br/por-que-o-google-glass-nao-e-o-futuro-que-precisamos/
O pós-Facebook
Com quase um bilhão de usuários, o Facebook parece inquebrável. Seus números são tão grandes que chegam a se confundir com os da própria Internet. Entrelaçado a praticamente tudo que é social no mundo eletrônico, ele se tornou uma plataforma de interação ampla, usada para fins tão variados quanto publicar fotos, trocar ideias, ler textos ou jogar games cada vez mais complexos. Empresas de todos os tipos usam o cadastro do Facebook como crachá de identificação e todo dia surgem novos produtos e serviços desenvolvidos exclusivamente para ele. Um dos pilares do ambiente digital, é difícil imaginar o futuro sem ele. Não é à toa que a expectativa pela oferta pública de suas ações em Wall Street venha causando tanto furor.
Mas o mundo digital evolui muito rápido, e quem pretende ficar na frente não pode se acomodar se não quiser ser ultrapassado. Até há pouco tempo ninguém imaginava que a Microsoft seria ameaçada em sua hegemonia. Sorrateiramente, o Google foi invadindo o espaço com produtos e serviços integrados, apoiados na nuvem, pois tinha compreendido que o modelo de venda de software estava com os dias contados.
Hoje é importante pensar no que virá depois das mídias sociais. Modelo de comunicação praticamente inexistente há dez anos, hoje essas plataformas de publicação e compartilhamento se tornaram tão populares e influentes a ponto de reconfigurar a visão que se tinha da Internet. Se no final do século passado “estar online” significava ter acesso a bibliotecas do mundo inteiro hoje a experiência é muito mais próxima, informal e restrita. Por mais que redes como o Facebook tenham abrangência global, os grupos de contato e interesse formados nela normalmente consistem de pessoas de uma mesma cidade, bairro, ambiente ou escola, trocando ideias a respeito do que foi publicado por alguns formadores de opinião. Seu uso não é tão diferente do compartilhamento de algo acontecido no jogo de futebol, novela, política, notícia ou publicidade nos papos informais cotidianos.
Pinguins genéricos
É curioso perceber que boa parte da interação via redes sociais é muito mais passiva do que a antiga ideia de “surfar” na Internet. Se no século passado a rede era uma experiência dinâmica de descoberta, em que novas opiniões e informações eram descobertos a cada link clicado ou digitado, hoje as redes já vem com a programação pronta. Seu usuário não vê mais uma tela em branco de um browser, aguardando comandos, mas uma lista interminável de conteúdo compartilhado, que raramente traz algo de surpreendente ou desagradável.
No Facebook a web 2.0 foi transformada em um canal personalizado de televisão. A interação, quando há, normalmente é pobre, feita através de ações simples de aprovação e compartilhamento, fácil de se realizar via controle remoto. É bem provável que os novos aparelhos de TV que acessem a Internet sejam utilizados para se assistir a esse grande “canal”, com programação ininterrupta, às vezes previsível e repetitiva, entregando para seus telespectadores exatamente aquilo que gostariam de assistir. A evolução digital parece alternar momentos de evolução e retrocesso.
Em um ambiente que se transforma a cada instante, as redes sociais precisam se transformar se pretendem continuar relevantes, como o fez a MTV. Na década de 1980, sua popularidade era incontestável. Junto com a CNN e a ESPN, a MTV revolucionou o formato televisivo ao levar a linguagem do rádio para o vídeo. Seus apresentadores cheios de personalidade entregavam conteúdo ininterrupto, independente das grades de horário, chacoalhando um formato bastante comportado e acomodado. Nos anos oitenta, a experiência de assisti-la era o que havia de mais próximo do que seria mais tarde a Internet, com novas ideias, linguagens e conteúdos o tempo todo. Mas a glória durou pouco.
A Internet (e serviços como o MySpace, iTunes e YouTube) tornaram a ideia de uma TV que lançava artistas uma coisa velha e engessada. O problema não estava na MTV, mas na TV como um todo. Para se manter sintonizada, a emissora precisou mudar de linguagem e de programação, e apanhou um bocado até se transformar em uma emissora que estrutura e populariza novas formas de humor e entretenimento, fazendo uma bela curadoria de conteúdo de tudo que é produzido nas mídias sociais.
O Facebook precisa ficar igualmente esperto se não quiser correr o risco de envelhecer rapidamente. Por mais que ele seja a maior rede do mundo, sua experiência é fria, passiva, simplória. Usuários de videogames, MMORPGs e de outras redes mais intensas até estão nele, mas não conseguem entender como um ambiente tão sem graça cause fascínio. Suas queixas são parecidas com aquelas feitas pelos usuários de Internet sobre a TV na virada do século.
Dentre essas redes, o Club Penguin chama a atenção. Seus usuários são crianças e pré-adolescentes, que não conseguem imaginar uma relação completa sem a ajuda de telas ou botões. A interação ali começa com a definição da própria personalidade e apresentação para o mundo. Como todos ali são pinguins genéricos, as personalidades não são definidas por nomes de família, local de residência ou trabalho. Em uma verdadeira meritocracia, todos começam iguais e só ganham importância conforme sua participação e interação social.
Mais estimulante
Decorando seus iglus, participando de conversas privadas, vestindo cuidadosamente suas aves-avatares conforme a ocasião e cuidando de seus Puffles para que não fujam, muitos desses habitantes do Século 21 aprendem o que há de interessante (e de deprimente) no mundo adulto à medida que participam de festas, economizam suas moedas e produzem notícias para o jornalzinho local.
Se o Facebook não compreender (e incorporar) essas mudanças, pode perder importância tão rapidamente quanto a ganhou, já que é fácil imaginar essas que hoje são crianças migrando para uma nova rede, mais ativa, estimulante e debatedora, muito mais real, duradoura e interessante do que a passividade do asséptico mundo azul em que só é permitido “curtir” e “compartilhar”.
***
Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP, trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país; mantém o blog www.luli.com.br
Publicado em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed692_o_pos_facebook
Cresce debate sobre aspectos nocivos de viver o tempo todo na internet
Por Nelson de Sá
Há dois meses, falando a estudantes em Stanford, Mark Zuckerberg desabafou que, se voltasse no tempo para recomeçar o Facebook, ficaria em Boston, longe do Vale do Silício, dos fundos de "venture capital" e da "cultura de curto prazo". Ele tem um problema: a abertura de capital do Facebook se aproxima e a rede social dá sinais de, nos EUA, ter batido no teto.
As visitas cresceram 10% de outubro de 2010 ao mesmo mês de 2011, segundo a comScore, contra 56% de aumento no ano anterior.
Em livros e artigos, cresce debate sobre os aspectos nocivos de viver o tempo todo na internet
Saturação das redes sociais ainda está longe do Brasil, onde elas continuam a crescer
Já se fala em "saturação social", como publicou o "New York Times". Segundo depoimento de David Carr, repórter e colunista da área cultural do "NYT", 2011 foi o primeiro ano em que ele viu sua produtividade cair por causa de seu consumo de mídia. E, para 2012, Carr diz estar diante da escolha entre cortar passeios de bicicleta ou "alguns desses hábitos digitais que estão me comendo vivo".
Nas três primeiras semanas, nada. "Meu Twitter ainda está me comendo vivo, embora eu tenha tido certo sucesso em desligá-lo por um tempo", diz ele à Folha. "Na maior parte do tempo, porém, é como ter um cão amigável que quer ser sempre acariciado, levado para passear. Em outras palavras, continua me deixando louco."
Pouco a pouco, os americanos, bem como os europeus, restringem a interação on-line e se tornam "espectadores", segundo o relatório Adoção de Mídia Social em 2011, da Forrester Research. Só um terço dos americanos e europeus atualiza seus perfis em redes sociais, Twitter inclusive, toda semana.
Já nos emergentes, Brasil entre eles, dois terços dos internautas atualizam seus perfis semanalmente. Nos centros urbanos, três quartos.
O relatório visa ajudar em estratégias de negócios, alertando de que "essas tendências apresentam um desafio para o Facebook, conforme se aproxima de seu IPO [oferta pública de ações]".
Aos estrategistas de marketing, Gina Sverdlov, da Forrester, escreve: "Se você tem como alvo usuários nos mercados ocidentais, priorize dar a eles conteúdo que possam simplesmente ler ou ver. Não espere muita interação dos consumidores ocidentais".
A reação vai além das redes sociais. No final do ano, a revista "Travel + Leisure" publicou uma edição sobre "o futuro das viagens", ouvindo futuristas e proclamando que "o maior luxo do século 21 será escapar da rede" em "black hole resorts", refúgios buracos negros, com "total ausência de internet --até as paredes serão impenetráveis ao acesso sem fio".
Segundo Judith Kleine Holthaus, ex-Future Foundation, hoje responsável por estratégia e insight na McDonald's Corp., "sejam instalados no alto de montanhas ou em vilas exóticas, os buracos negros serão o ápice do movimento 'slow food' [a favor de produção camponesa], 'slow travel', 'slow' tudo --o máximo em se livrar de tudo".
Na mesma direção, espalham-se pela Ásia os centros de recuperação de viciados em internet. Na Coreia, já seriam 200. Na China, 300.
Ganham repercussão nos EUA os softwares criados por Fred Stutzman, da Universidade Carnegie Mellon, como o Freedom, um "software de produtividade" que restringe o acesso à web por um determinado número de horas.
E no último ano e meio acumularam-se os livros com questionamentos aos efeitos da internet: ela mina a criatividade, escreve Jaron Lanier em "Gadget - Você Não É um Aplicativo" (ed. Saraiva); sufoca os momentos de quietude, segundo "Hamlet's Blackberry", de William Powers, inédito no Brasil; e afasta as pessoas com ferramentas que serviriam para aproximá-las, segundo "Alone Together", de Sherry Turkle, do MIT, também inédito por aqui.
O porta-bandeira nas críticas é Nicholas Carr, autor três anos atrás de um artigo de grande repercussão na revista "Atlantic", "Is Google Making Us Stoopid?" ("O Google está nos tornando burros?"), com argumentos que depois ampliou em "A Geração Artificial" (ed. Agir). Dele, na edição mais recente: "O que são os smartphones senão coleiras high-tech?".
Link da matéria: http://www1.folha.uol.com.br/tec/1040056-cresce-debate-sobre-aspectos-nocivos-de-viver-o-tempo-todo-na-internet.shtml
Empresas norte-americanas exigem que candidatos informem a senha do Facebook
Pouco antes de chegar a uma entrevista de emprego recente, o que Justin Bassett esperava eram as perguntas usuais sobre experiência profissional. Mas ele foi surpreendido pelo entrevistador, que queria saber também a sua senha do Facebook.
Bassett, que é estatístico e vive em Nova York, recusou-se a informá-la e desistiu da vaga, alegando que não queria trabalhar para uma empresa que fuça esse tipo de informação. Mas seu caso não é isolado, pois várias empresas americanas vêm exigindo a mesma coisa de seus candidatos, e muitos não podem se dar ao luxo de dizer não.
Foi o que aconteceu com o guarda Robert Collins em 2010, quando voltava de uma licença após a morte de sua mãe. O Departamento de Segurança Pública de Marylan pediu que ele informasse a sua senha na rede social para checar se ele possuía alguma conexão com membros de gangues.
—Eu precisava do meu emprego para alimentar minha família. Eu tinha que dar (a senha) - afirmou Collins.
A prática vai além da checagem que departamento de recursos humanos já faziam sobre o conteúdo publicado por quem busca um emprego na companhia a pretexto de conhecer melhor o futuro funcionário. Pedir a senha de um candidato é mais comum entre órgãos públicos, especialmente entre polícias e serviços de atendimento a emergências.
— É como exigir as chaves da casa de alguém — disse Orin Kerr, professor de direito da Universidade George Washington e ex-promotor federal, que classificou a prática de "uma flagrante violação de privacidade."
A legalidade do expediente está sendo questionada, e projetos de lei no Illinois e em Maryland querem proibir órgãos públicos de fazerem isso.
Empresas que não chegam a exigir as senhas têm tomado outras medidas, como pedir aos candidatos que adicionem na rede social funcionários do departamento de recursos humanos da companhia ou acessem o site na frente do entrevistador. Alguns profissionais já empregados também têm sido obrigados a assinar um acordo que os proíbe de criticar o empregador nas redes sociais.
Outras companhias também estão usando programas de computador que vasculham os perfis dos candidatos no Facebook. Entre elas está a gigante Sears, que solicita aos proponentes a uma vaga na varejista que acessem a página da empresa por meio do login no Facebook. Dessa forma, o aplicativo consegue informações como a lista de amigos do candidato. Um porta-voz da Sears, Kim Livremente, disse que o programa permite que a companhia atualize as informações de experiência do profissional no mercado de trabalho.
O Facebook não quis comentar os casos, dizendo apenas que proíbe "a solicitação de informações de login e acesso às contas por terceiros". Repassar senhas também é proibido pelos termos de uso da rede social. O Departamento de Justiça americano considera crime federal o acesso irregular a uma rede social, mas o próprio órgão disse recentemente no Congresso que esse tipo de violação não está sujeita a processo.
Link da matéria: http://oglobo.globo.com/tecnologia/nos-eua-empregadores-agora-exigem-que-candidatos-informem-senha-do-facebook-4368337
A web paralela do Facebook
A web paralela do Facebook
por Pedro Dória.
Na semana passada, o Facebook anunciou uma série de mudanças na maneira como funciona e em sua aparência. O noticiário das próximas semanas é previsível. Usuários vão reclamar, acusações de quebra de privacidade circularão, uns tantos vão deixar o sistema em protesto. E aí tudo voltará a ser como dantes. Não é que os infelizes não tivessem suas razões. Tinham. Mas já aconteceu e essas coisas se repetem. Enquanto isso, mais um passo foi dado para a criação de uma internet paralela.
Pois existem duas maneiras de enxergar o que Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, está fazendo. A primeira é justamente a de uma internet paralela. Ela é organizada, bem acabada e absolutamente fechada. Já tem mais de 700 milhões de usuários. A segunda é a de que ele está construindo sobre a internet livre que todos usamos uma nova camada. Esta camada melhora a rede, facilita nossa vida e nos transforma a todos em dependentes do Facebook.
O Google já é assim. Dependemos dele. A rede é inimaginável sem o Google. Ser o segundo a conquistar tal status não é trivial. O Facebook está quase lá.
Para chegar lá, porém, algumas mudanças se fizeram necessárias. A primeira é mudar a alma por trás do botão "curtir". Espalhado por toda a rede, presente em quase todo site, serve para que o usuário recomende em sua página de perfil no Facebook uma foto, um artigo. O "curtir" mudará. Quem faz programinhas para o Facebook poderá usar qualquer verbo. Um site de fotos poderá ter o selo "eu vi uma foto", o jornal seu "li este artigo".
A mudança parece sutil, porém, ao implantar linguagem natural, algo de fundamental muda. No seu Facebook, tudo aparecerá como uma lista de atividades lógica e humana. Agradável.
É uma mudança fundamental porque também a home pessoal no Facebook mudará. Vira uma linha do tempo, com a lista de todas as atividades recentes até os muitos anos passados. Tudo o que você comentou, aquilo que leu na internet, as fotos das quais gostou e as que publicou. As amizades que fez. De repente, a home no Facebook deixa de ser um retrato da atividade recente e vira história de vida. Um histórico de quem somos mas também de quem fomos. Quase um ensaio de biografia, com o registro não apenas daquilo que fizemos dentro do Facebook mas também do que pinçamos no resto da rede.
O Facebook cria uma camada social na internet toda. Contamos nossa história através da rede e a apresentamos para os amigos que fizemos nela. No mesmo compasso, o sistema traz para dentro de si informação. O britânico "The Guardian" e o "New York Times" são apenas dois exemplos de sites que toparam construir uma versão de seus sites dentro do Facebook.
Conforme a lista de parceiros se amplia, o que era um site, uma rede social, passa a ser um universo paralelo dentro da rede. Tudo terá a cara do Facebook, limpo e organizado e fechado, protegido daquele mundo caótico lá fora.
Ao passo que cria uma camada na internet maior, busca replicar uma versão selecionada dela lá dentro.
O Facebook é a internet que o Google não vê. Totalmente fechado, não é indexado pelo site de busca. Juntos, e rivais, transformam-se nos nomes mais poderosos da rede. O que está em jogo é dinheiro. Conforme usamos sua busca e muitos serviços, o Google acompanha nossos passos pela web e transforma nossos padrões de comportamento em propaganda. O Facebook criou um sistema que tem o potencial de replicar o poder do Google e ir além. Porque, lá dentro, ele não sabe apenas parte do que fazemos online. Sabe tudo.
Quando usamos porque é útil e lúdico, damos algo em troca: nossas identidades. Elas viram dinheiro fácil, seja para um, seja para o outro.
Link do artigo: http://oglobo.globo.com/tecnologia/a-web-paralela-do-facebook-2693929






