Na peça de Shakespeare, quando o fantasma do pai pede que se lembre dele, Hamlet promete apagar todos os registros "da tábua da minha mente" para se concentrar na memória do pai --e na vingança de sua morte.
A tábua, "table" no original, é "O BlackBerry de Hamlet", título do livro de William Powers que sai no Brasil um ano e meio após entrar para os mais vendidos do "New York Times", nos EUA.
Leia abaixo a íntegra da entrevista com Powers:
Seu livro abre com Sócrates. No diálogo que você menciona, ele fala contra a palavra escrita e Fedro fala contra a cidade, o ambiente. Essas visões têm paralelo com os dias de hoje?
Sim. Comecei a parte filosófica do livro com esse diálogo porque ele levanta temas que acredito que são importantes hoje.
Um é que nós somos criaturas sociais, queremos conhecer nosso ambiente e nosso mundo e, para prosperar nele, precisamos de informação e de outras pessoas. Sócrates, em seu amor pela cidade e pela comunicação oral, é um grande exemplo disso. Você pode dizer que ele era viciado na palavra falada. Mas, da maneira como Fedro entende, em parte por causa do conselho que ouve de um médico, nós também precisamos de alguma distância de nossa conectividade, de modo a poder fazer algo útil com ela. Para refletir sobre ela; para talvez levar o mundo em que vivemos a uma situação melhor; para refletir sobre aquelas informações e fazer algo novo com elas e levar de volta ao mundo.
Isso é o que a caminhada simboliza para mim, é a importância de manter alguma distância da multidão nas nossas vidas. Para mim, a multidão de Atenas, a cidade movimentada, é uma espécie de metáfora ou substituto para a movimentada multidão digital em que estamos navegando hoje, todos os dias.
Mas Sócrates também é cético com a novíssima tecnologia que chegou, a palavra escrita, e para mim isso é um lembrete de que, mesmo quando buscamos nos distanciar da tecnologia, não devemos ter a mente fechada. Não devemos temer a tecnologia da maneira como algumas pessoas temem hoje.
Não sei quanto ao Brasil, mas aqui temos pessoas que são basicamente luditas, que acreditam que o mundo está sendo destruído pela conectividade digital. Eu não acredito nisso, sou um otimista, e queria mostrar que mesmo alguém tão brilhante como Sócrates poderia entender errado. Essa é uma espécie de alerta na história: tenha consciência de que não devemos ver só o lado ruim da nova tecnologia, mas também o lado bom, os benefícios. O que, é claro, Platão viu, porque ele decidiu usar exatamente a tecnologia que Sócrates condena, para registrar o diálogo.
A metáfora mais interessante, ao menos para mim, é exatamente aquela que você leva ao título, o BlackBerry de Hamlet. A "tábua" mencionada já era uma metáfora em si mesma, para a visão de Shakespeare da nova tecnologia da época, que era a imprensa.
Sim.
É a mesma ideia ou você vê diferença com o que menciona de Platão?
Eu falo bastante sobre o livro, agora já tem um ano e meio que venho tratando publicamente dele, e na verdade essa é a mais difícil de abordar, embora seja o título, porque as ideias que levanto naquele capítulo são um pouco sutis. Vou tentar abordar os diferentes níveis que trabalho nele.
Em primeiro lugar, sim, a tábua de Hamlet faz um paralelo com o nosso próprio tempo tecnológico. É um aparelho, uma nova invenção que as pessoas amavam e na qual eram viciadas, durante uma revolução tecnológica. O que é diferente é que ela é uma combinação entre o velho e o novo, usa uma tecnologia, a escrita à mão, que as pessoas pensavam que morreria, na era da imprensa. E que na verdade se tornou mais útil, num tempo em que as pessoas se sentiam oprimidas pelo peso de todos aqueles impressos sendo empilhados ao seu redor. E pela incapacidade de estar a par de tudo, um excesso [overload] de informação, digamos.
Elas podiam escrever algo temporariamente e fazer com que desaparecesse, trazendo portanto alguma ordem às suas vidas malucas e se mostrando capazes de navegar a revolução mais efetivamente. Nesse sentido, era diferente dos nossos aparelhos, que tendem ao excesso hoje. E é um modelo de como a tecnologia pode nos ajudar a ir para a frente, para um quadro melhor, e tornar a carga um pouco mais leve.
Em segundo lugar, eu simplesmente gosto da linguagem metafórica que Shakespeare usa, quando Hamlet fala de seu "globo alterado" e de "apagar a tábua da mente", tentando se livrar de toda aquela desordem. Isso me fez lembrar tanto os desafios que enfrentamos, com nossas distrações de hoje, como o desejo que temos de ser capazes de aliviar a carga e tornar a vida um pouco mais administrável.
Todas essas coisas estão de certa maneira empacotadas nesse capítulo. Sou muito cético das pessoas que dizem que o futuro será digital e não haverá utilidade para velhas tecnologia como o papel impresso. Realmente acho que não é o caso. Portanto, a maneira como o BlackBerry de Hamlet, a tábua, usa a velha tecnologia da escrita à mão tem a ver com isso também.
O subtítulo de seu estudo original em Harvard, em 2006, era "Por que o papel é eterno". Isso não o torna também um ludita?
Não, não. No ensaio eu argumento que a razão por que o papel será eterno, na minha opinião, é que as tecnologias digitais vão evoluir, de maneira que farão por nós o que o papel sempre fez. O papel pode até desaparecer, mas será como se não percebêssemos, porque teremos aparelhos que trabalham por nós da mesma maneira que o papel faz.
Por exemplo, existe essa visão de um e-book que terá centenas de páginas e que você vai tocar e sentir como um papel, virar as páginas com as mãos. O que seria muito útil, penso eu, porque somos seres corporificados e é bom trabalhar com uma tecnologia corporificada. E o e-book será atualizável e você poderá transformá-lo em qualquer livro que queira. Portanto, acredito que estamos caminhando para um futuro que, de forma irônica, será moldado pela nossa experiência com o impresso.
Ainda que gostemos de pensar que estamos vivendo uma ruptura com o passado, eu vejo mais como uma evolução contínua, uma tecnologia se sobrepondo à outra. É a ideia que eu estava querendo lançar com o ensaio, que eu imaginava que teria um papel muito maior no livro. No rascunho, era um capítulo inteiro. Mas meu editor ficava dizendo que ele não cabia no livro e eu deveria deixá-lo como ensaio. Foi o que decidi fazer, no fim.
Li um texto na "New Yorker" que elogia, mas também questiona seu livro. Pega a parte que oferece uma saída ao vício tecnológico --desligar tudo o que é digital-- e aponta como contradição que você aceita manter a TV ligada. A televisão não assusta mais, como antes?
Em primeiro lugar, sobre esse texto, eu fiquei feliz de ser discutido na "New Yorker", mas não penso que o autor, Adam Gopnik, leu o livro todo, porque me classifica na categoria errada, das pessoas que gostariam que as novas tecnologias nunca tivessem aparecido. E eu penso que sou de outra categoria, das pessoas que acreditam que estavamos atravessando um ciclo que sempre atravessamos e que é algo normal. Acho que o livro foi mal interpretado.
Mas sim, quanto à questão da televisão, como eu nasci nos anos 60, para mim ela é perfeitamente natural, não uma ruptura. E acredito que esse é um aspecto natural de todo período que você atravessa. As pessoas que nascem com a tecnologia se ajustam mais facilmente.
Ouço muito uma pergunta, "isso não significa que os jovens de hoje não têm problemas com o excesso de informação e com o vício digital?". E eu sempre contraponho que encontro muitos jovens que se sentem conectados com o livro, que agora é parte do currículo de um monte de universidades. Porque nossa atenção só vai até uma certa capacidade de expansão, pela natureza do cérebro. Isso significa que, em algum nível, todos estamos tendo de nos ajustar a essa nova inundação de informação. É uma inundação muito rica, com grande potencial, mas também um desafio.
Você esteve no último festival South by Southwest, que priorizou essa corrida para lidar com o excesso de informação digital.
Sim.
Neste ano, além do excesso de informação, o SXSW deve focar também realidade aumentada ["augmented reality"] e inteligência expandida, esse tipo de discussão. Como você vê essa questão, da tecnologia tornando nossas mentes e nossas realidades maiores e sem limites?
Acredito que estamos no caminho de um sentido expandido de realidade, de uma conexão expandida com a realidade, graças às nossas ferramentas. Falo de uma dessas visões no livro, em que as paredes dos prédios serão cabeadas e a capacidade de conexão com a informação estará ao nosso redor _e portanto será como se parte de nossas mentes estivesse lá fora, no mundo. Teremos uma espécie de consciência expandida, o que vejo como uma possibilidade maravilhosa. Acredito que chegaremos lá mais efetivamente se nos mantivermos com os pés no chão.
Lembre-se que também trazemos muito poder e potencial à equação. As máquinas são extraordinárias e vão nos ajudar, mas muitas vezes não levamos em conta que a mente humana é o aparelho mais complexo e poderoso criado no Universo, de que temos notícia. E somos tão importantes para a equação quanto qualquer computador. Daí essa ideia de equilíbrio entre nossa vidas digitais e não digitais ser tão crucial para mim. Porque queremos manter nossas mentes tão arraigadas na realidade e trazer nossas próprias conclusões e conexões à mesa, para que a realidade expandida seja tão rica quanto possível.
Ao mesmo tempo, você está agora mergulhado na tecnologia, com a Bluefin Labs.
Vou trabalhar nesse projeto ao longo do próximo ano. É uma startup de tecnologia, que saiu do MIT, e criou novas maneiras de identificar padrões e extrair significados da conversação de mídia social, especialmente do Twitter. Vou aplicar a tecnologia na campanha presidencial americana. Será uma nova maneira de ler o público. O livro tem uma série de mensagens, e uma delas é sobre o potencial criativo do digital. Vejo esse projeto como uma tentativa de ir mais fundo, como escrevo no livro, de levar a tecnologia a lugares mais profundos.
Publicado em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1046403-livro-explora-reacao-as-novas-tecnologias.shtml
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Cibercultura no Brasil
Entrevista com o professor André Lemos sobre a cibercultura no Brasil
Por Fabiana Paiva, da Magnet
Pioneiro nos estudos em cibercultura no Brasil, André Lemos é referência no assunto. O professor doutor da Faculdade de Comunicação da UFBA aterrissou em São Paulo semana passada, convidado a abrir o simpósio Cibercultura 2.0. O evento, um dos poucos mas cada vez mais freqüentes na área, aconteceu no Senac de Comunicação e reuniu diversos estudiosos e profissionais para discutir o complexo campo cultural que se formou com as novas tecnologias.
Aproveitando sua presença em terras paulistanas e cibernéticas, André Lemos concedeu entrevista virtual à Magnet para falar um pouco mais sobre a realidade da cibercultura no país, como é o mercado de trabalho nacional e o campo de estudos para quem quer seguir essa carreira. André também deu um panorama dos cursos disponíveis atualmente e falou sobre como andam seus próximos trabalhos e as tendências da cibercultura para os próximos anos.
Como você definiria o conceito de cibercultura dentro do que conhecemos por sociedade contemporânea? Podemos dizer que a cibercultura é um conceito estritamente ligado às novas tecnologias e suas influências no modo de vida da sociedade atual, ou representa uma estrutura de valores culturais mais ampla? E a quem ela influencia?
André Lemos -A cibercultura nada mais é do que a cultura contemporânea em sua interface com as novas tecnologias de comunicação e informação, ela está ligada às diversas influências que essas tecnologias exercem sobre as formas de sociabilidade contemporâneas, influenciando o trabalho a educação, o lazer, o comércio, etc. Todas as áreas da cultura contemporânea estão sendo reconfiguradas com a emergência da cibercultura.
Em agosto deste ano (numa outra entrevista) você afirmou que o Brasil tem facilidade de atração pelas novas tecnologias. Qual seria a razão? E considerando que o país ainda se encontra na "periferia" desse movimento, apesar da crescente movimentação dos hackers e dos grupos ciberativistas contra a exclusão digital, o que falta na sua opinião para o Brasil entrar de vez na cibercultura?
André Lemos -A sociedade brasileira passou da cultura oral diretamente para a cultura audiovisual e isso interfere na forma como nos relacionamos com os novos produtos midiáticos. O Brasil enfrenta o problema, mundial, de inserção de camadas excluídas da população nas novas tecnologias. Para entrar de vez, precisamos de políticas públicas que garantam o acesso à totalidade da população, o desenvolvimento de softwares e um maior engajamento político através dessas tecnologias.
De 1991 (quando iniciou suas pesquisas) para cá, como você vê o desenvolvimento dos estudos e discussões sobre cibercultura no Brasil? E dentro dessa perspectiva, como você avalia a distribuição da produção científica nacional sobre cibercultura, além dos eventos como o Cibercultura 2.0, entre centros como Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo e a Região Sul do país?
André Lemos -Os estudos em cibercultura ainda engatinham no Brasil, mas já existem grupos de pesquisa de ponta em várias áreas e em vários Estados do país. Temos ainda trabalhos interessantes em Recife, Porto Alegre.
Em quais campos da vida o profissional especializado em cibercultura poderá aplicar seu conhecimento? Onde ele atuaria dentro do mercado de trabalho nacional?
André Lemos -Há várias áreas, desde a estritamente acadêmica até produção multimídia, jornalismo online, webdesigner, gestor de informação, além das ligadas à informática como programadores, analistas de sistemas, entre outras.
Você coordena o grupo de pesquisa em cibercultura, o Ciberpesquisa, na Faculdade de Comunicação da UFBA. Como você avalia os espaços acadêmicos em cibercultura no Brasil, em termos de quantidade, distribuição e qualidade curricular, por exemplo? Você indicaria alguns centros ou curso de cibercultura (nacionais ou internacionais) como referência? Quais?
André Lemos -Não há cursos de cibercultura no Brasil, mas cursos que abordam um ou outro aspecto da cibercultura. Temos cursos em hipermídia, jornalismo eletrônico, webdesign, entre outros. O Ciberpesquisa está ligado à pesquisa em cibercultura, que é uma linha do programa de pós-graduação em comunicação da Facom/UFBa. Centros de referência no Brasil são: Ciberpesquisa (UFBa), Virtus (UFPe), Ciberideia (UFRJ). Há, nos programas de pós-graduação em comunicação do Brasil, linhas de pesquisa sobre cibercultura.
Quais foram os temas que o inspiraram ao longo de seu trabalho em cibercultura? Atualmente, quais são seus trabalhos na área?
André Lemos -Trabalho com esse tema desde 1991, quando comecei meu doutoramento na França. Tenho tratado de algumas questões importantes para conhecer a cibercultura. Fiz trabalhos e pesquisas sobre sociabilidade online, hipertextos, cyborgs, hackers... Agora estou interessado na relação entre o espaço urbano e a cibercultura. Estou editando um livro sobre esse tema, Cibercidades, que deve sair ainda esse ano ou no começo de 2004.
Por fim, o que você apontaria como tendência para o futuro da cibercultura no Brasil, comparativamente às tendências no restante do globo? E qual sua avaliação sobre o surgimento de espaços de discussão como o Cibercultura 2.0?
André Lemos -Espaços de discussão são sempre bem-vindos. Acho que o grande tema atual é o wireless, o wi-fi. A conexão móvel vai alterar práticas e mudar nossa percepção do ciberespaço. Cada vez mais estaremos imersos em um nomadismo que articula o espaço de fluxo com o espaço de lugar.
Publicado em: http://informatica.terra.com.br/interna/0,,OI218911-EI553,00.html
"O ambiente digital está alterando nosso cérebro de forma inédita"
Para a neurocientista britânica Susan Greenfield, o admirável mundo novo da internet e das redes sociais não é tão admirável assim. Videogames e redes sociais estão, na visão dela, criando uma nova geração – a de "nativos digitais" – que vai passar a maior parte de sua vida online. E isso não é bom, segundo ela. "As crianças que estão crescendo agora nesse ambiente do ciberespaço, não vão aprender como olhar alguém nos olhos, não vão aprender a interpretar tons de voz ou a linguagem corporal", disse em entrevista ao site de VEJA, concedida em sua passagem pelo Brasil para falar na Conferência Fronteiras do Pensamento, em São Paulo e Porto Alegre.
Susan, de 52 anos, autora de livros como The Private Life of the Brain (A Vida Privada do Cérebro, sem edição no Brasil), afirma que há um grande risco de as pessoas passarem a viver suas vidas exclusivamente em ambientes virtuais. "Um estudo americano, de 2010, mostrou que mais da metade dos adolescentes entre 13 e 17 anos gastava mais de 30 horas por semana na internet. São quatro ou cinco horas por dia não andando na praia, não dando um abraço em alguém, não sentindo o sol no rosto, não subindo em uma árvore, não fazendo todas as coisas que as crianças costumavam fazer."
Outra comparação feita pela neurocientista, que também é professora de Farmacologia na Universidade de Oxford, é entre as redes sociais e a indústria do cigarro. De acordo com ela, assim como as produtoras de tabaco negavam o poder viciante do cigarro, o mesmo ocorre hoje com as companhias que lucram com o uso das redes sociais e videogames. "É preciso admitir que existe um problema", diz ela, citando estudos que relacionam a utilização intensiva de redes sociais com a liberação de substâncias estimulantes no cérebro.
Apesar de enxergar com pessimismo um mundo em que estejamos conectados a maior parte do tempo, Susan diz que não adianta proibir crianças e adolescentes de usar videogames e redes sociais. "É preciso oferecer um mundo tridimensional mais interessante para eles."
A internet afeta o cérebro? Todos estão interessados em saber como as tecnologias digitais, especialmente a internet, afetam o cérebro. A primeira coisa a saber é que viver afeta o cérebro. O cérebro muda a todo instante de nossas vidas. Tudo que é feito durante o dia vai afetar o cérebro. A razão disso é que o cérebro humano se desenvolveu para se adaptar ao ambiente, não importando qual fosse esse ambiente. É interessante notar que agora o ambiente é muito diferente, de maneira sem precedentes.
Como a imersão num ambiente virtual pode afetar o cérebro? Há várias perguntas diferentes a serem respondidas. Eu acho que há três grupos abrangentes. O primeiro é o impacto das redes sociais na identidade e nos relacionamentos. O segundo é o impacto dos videogames na atenção, agressividade e dependência. E o terceiro é sobre o impacto dos programas de busca no modo como diferenciamos informação de conhecimento, como aprendemos de verdade. É claro que há muitos estudos que ainda precisam ser feitos, mas certamente há cada vez mais evidências sobre aspectos positivos e negativos. Por exemplo, já foi demonstrado que jogar videogames pode ser similar a fazer um teste de QI. Pode ser que o aumento de QI visto em alguns testes aconteça graças à repetição de uma certa habilidade ao jogar videogames. Agora, só porque vemos um aumento de QI em quem joga videogames não quer dizer que haja um aumento de criatividade ou capacidade de escrita. Também se sabe, por alguns estudos, e por exames de imagem, que os videogames aumentam áreas do cérebro que liberam dopamina. Também sabemos que, em casos extremos, nos quais as pessoas gastam até 10 horas por dia na frente da tela, existe uma forte correlação com anormalidades em exames cerebrais. Como costumamos dizer, uma andorinha só não faz verão. Então é importante fazer mais estudos. Isto não é definitivo, em se tratando de ciência nada é definitivo, por isso é importante começar a fazer pesquisa básica porque, até agora, está claro que coisas boas e coisas ruins estão acontecendo de um modo que não haviam acontecido em gerações passadas.
Existe um limite de tempo seguro para navegar na internet? É claro que muitos pais já me perguntaram: 'com que frequência meus filhos devem usar a internet? Até quando é seguro?' O que acontece na Inglaterra, acho que aqui também, é que alguns pais falam para os filhos 'façam uma pausa a cada 10 minutos'. Mas eu não conheço ninguém que no meio do jogo pensa 'está na hora da minha pausa de 10 minutos'. Minha sugestão é agradar as crianças, em vez de dizer 'você só jogar por uma ou duas horas, ou você simplesmente não pode jogar.' Não seria melhor se a criança decidisse sozinha que não quer jogar? E por que eles fariam isso? Porque o que você vai oferecer a ele é muito mais excitante, muito mais agradável, muito mais interessante, do que esse jogo. É um desafio, mas o que temos que fazer é tentar pensar em maneiras, não tentar negar a tecnologia. Nós podemos, na nossa sociedade maravilhosa, com toda essa tecnologia, com todas as oportunidades que temos, dar aos nossos filhos um mundo tridimensional interessante para viver.
Há quem associe o aumento da incidência do transtorno de déficit de atenção e da hiperatividade (TDAH) ao uso da internet pelas crianças. Essa ligação faz sentido? Está havendo um crescimento alarmante de TDAH. Sabemos que a prescrição de drogas como ritalina, usadas para TDAH, triplicaram, quadruplicaram nos últimos 10 anos. É claro que isso é muito. A condição pode estar sendo mais diagnosticada ou pode ser que os médicos estejam prescrevendo mais os remédios. Há, porém, outro fator importante: a causa pode ser as tecnologias digitais.
Por que culpar a internet e não a TV, por exemplo? Algumas pessoas dizem que a TV é a mesma coisa que a internet. Mas já se mostrou que não é o caso. Há uma grande diferença para o que fazemos na internet, que é altamente interativa e também tende a ser mais estimulante. Nós também sabemos que, quando se joga videogame, uma substância química no cérebro relacionada com o estímulo, chamada dopamina , é liberada. O que é interessante é que, quando se toma ritalina, a dopamina também é liberada. Então, agora as pessoas estão pensando que talvez as crianças estejam viciadas em videogames. E estão medicando essas crianças porque elas teriam TDAH, e estão fazendo, embora não façam ideia, com que haja mais dopamina no cérebro. Então certamente há uma ligação entre TDAH e videogames, mas precisamos entender mais sobre os mecanismos cerebrais para entender como isso funciona.
Como a senhora acha que a geração atual será no futuro? É interessante pensar no caráter, nas aptidões da próxima geração, os cidadãos da metade do século 21. Eu acho que haverá coisas boas e coisas ruins. Imagino quetalvez eles tenham um QI maior e uma boa memória. Acho também que eles correrão menos riscos que nossa geração – isso pode ser tanto bom quanto ruim. Por um lado, ninguém quer pessoas que nunca se arriscam, que são excessivamente precavidas, mas, por outro lado, também não queremos pessoas inconsequentes. Infelizmente, também acho que essa geração terá um senso de identidade mais frágil, menos empatia, menos concentração, e podem ser mais dependentes ao viver o "aqui e agora" em vez de ter um passado, presente e futuro. Talvez eles fiquem mais presos ao presente.
Por que o senso de identidade seria menor? Até recentemente, em muitas partes do mundo, os seres humanos tinham preocupações mais imediatas, como sobreviver, se manter aquecido, não ter dor, não viver com medo e ter onde se abrigar. Essas questões eram as mais importantes quando se era um adulto. Mas agora a tecnologia, em sociedades mais privilegiadas, como o Brasil e a Grã-Bretanha, está permitindo que a população, pela primeira vez na história, viva muito mais e tenha uma vida saudável. Uma criança tem, agora, uma em três chances de viver mais de 100 anos. Então o que fazer com esse tempo? Essa é uma pergunta que não se fazia no passado porque as pessoas morriam de doenças ou estavam preocupadas com outras coisas. Mas agora é factível presumir que as pessoas não saberão o que fazer com a segunda metade de suas vidas, após seus filhos estarem criados. Se elas estiverem saudáveis, em forma, mentalmente ágeis, não poderão simplesmente jogar golfe todo dia, ou sudoku. Acho que uma das grandes questões para eles será fazer perguntas que tradicionalmente apenas adolescentes fazem: "Quem sou eu? Qual é o sentido da vida? Para onde estou indo? Qual o propósito disso tudo?" Na minha opinião, isto pode ajudar a explicar por que, de uma maneira engraçada, Facebook e Twitter são tão populares.
Por quê? As pessoas têm um senso integral de identidade. De repente elas se sentem importante porque gente ao redor do mundo está se comunicando com elas, comentando o que elas disseram. Então, este tipo de pessoa, que no passado vivia em uma comunidade local, e tinha uma identidade dentro daquela cultura, dentro daquele país, agora tem uma presença global, mas que é construída externamente. Não é real. É como em uma ocasião na qual estava em um café da manhã com Nick Clegg (vice-primeiro-ministro da Grã-Bretanha) e tinha uma mulher perto de mim tão ocupada contando a todo mundo que ela estava tendo uma café da manhã com Nick Clegg que nem conseguiu prestar atenção ao que ele estava dizendo. Ela só ficava tuítando o tempo todo: "café da manhã com Nick Clegg". Eu vi um filme com duas meninas conversando dentro de um carro e uma pergunta para a outra: "Como você se sente dentro deste carro?" Ela não responde "estou triste" ou feliz ou animada, nada disso. Ela diz: "o carro é digno de um post no Facebook."
Por que isso é preocupante? A partir disso eu infiro que as pessoas estão construindo uma identidade no ciberespaço que em boa parte é formada pela visão das outras pessoas. Existe um site chamado KLOUT. Se você entrar nesse site, ele te diz o quão importante você é, te dá um número chamado Klout Score. Klout, em inglês, significa importante. As pessoas pagam para ver qual é a sua pontuação e para aumentá-la. Eu acho interessante essa tendência de que mesmo que você sinta-se muito importante, muito conectada, você se sente insegura, tenha baixa autoestima, sinta-se constantemente inadequada. Existe um livro muito bom escrito por Sherry Turkle chamado Alone Together - Why We Expect More From Technology and Less From Each Other (algo como "Juntos sozinhos - Por que esperamos mais da tecnologia e menos de cada um de nós", lançado em janeiro, ainda sem editora no Brasil). Ela disse: "bizarramente, quanto mais conectado você está, mais você está isolado."
Hoje, entretanto, a maior parte das pessoas continua levando suas vidas normalmente, fora do ciberespaço, e apenas uma pequena parte dentro dele. Isso se inverterá no futuro? A maioria das pessoas dirá que, se tirarmos um instantâneo da sociedade hoje, um monte de pessoas está vivendo normalmente e feliz em três dimensões. Elas têm amizades saudáveis e gostam de estar no Facebook e no Twitter. Com certeza, é apenas uma minoria de pessoas que gastam até 10 horas por dia em frente do computador. Porém eu acho esse tipo de argumento problemático porque é solipsista — você está argumentando a partir do seu ponto de vista. Já falei várias vezes com jornalistas, que geralmente são de meia-idade e de classe média, e dizem que usam isso e aquilo e é fantástico. Às vezes sou criticada porque não estou no Facebook, não estou no Twitter, e mesmo assim estou comentando a respeito. Eu respondo que, mesmo se eu estivesse me divertindo muito no Facebook, isso não quer dizer que todos sejam como eu ou que vão usar do mesmo modo que eu uso, ou que vão ter o mesmo tipo de amizades que eu tenho.
O uso então é exagerado? Eu acho que precisamos olhar para as estatísticas em vez de apenas levar em conta as impressões pessoais ou os meios de comunicação. De acordo com as estatísticas, os chamados nativos digitais, gente que nasceu após 1990, apresentam níveis de uso alarmantes. Por exemplo, um estudo americano, de 2010, mostrou que mais da metade dos adolescentes entre 13 e 17 anos estavam gastando mais de 30 horas por semana na internet. O que me chama atenção não são as 30 horas, mas o que vai além disso. Isso significa que pelo menos quatro ou cinco horas por dia em frente ao computador. O problema com isso é que, não importando o quão fantásticas ou benéficas sejam as redes sociais — vamos dizer que sejam 100% maravilhosas — ainda são quatro ou cinco horas por dia não andando na praia, não dando um abraço em alguém, não sentindo o sol no rosto, não subindo em uma árvore, não fazendo todas as coisas que as crianças costumavam fazer. Acho que devemos prestar atenção a essa questão. Acho também que podemos comparar o que acontece hoje com o momento do anos 50 quando as pessoas começaram a mostrar uma relação entre o câncer e o cigarro. A indústria do tabaco foi hostil a essa descoberta, tentou negar e insistir que fumar não era viciante. E se você tem um grupo de pessoas se divertindo e outro grupo fazendo dinheiro com isso, esse é um círculo perfeito. A primeira coisa a fazer quando pensamos na relação entre os jovens e a internet é reconhecer que talvez aí exista um problema.
Não se trata de excesso de zelo? Existem outras questões também. Há uma grande diferença entre os chamados "imigrantes digitais", pessoas como eu e possivelmente pessoas como as que estão lendo essa entrevista e que tiveram uma educação convencional, cresceram lendo livros, tendo relações apropriadas, em três dimensões, e as crianças que estão crescendo agora, recebendo um comando evolucionário para se adaptar ao meio ambiente. Se esse ambiente é incessantemente o ciberespaço, elas não vão aprender como olhar alguém nos olhos, elas não vão aprender a interpretar tons de voz ou a linguagem corporal. Elas não vão aprender como é quando se toca alguém, se tem um contato físico. O que significa que, se alguém ficar cara a cara com alguém no mundo real será mais desagradável, mais agressivo, então as pessoas vão preferir se comunicar por meio das telas. Já é o caso da Grã-Bretanha, não sei como é aqui no Brasil. Escritórios se tornaram locais bastante silenciosos, porque, em vez de conversarem entre si, as pessoas preferem enviar mensagens. Outro problema que, acho eu, mostra uma tendência, é um fantástico aplicativo — é fantástico que as pessoas paguem por isso. São dois, na verdade. Um deles se chama Self Control (Auto controle). O outro se chama Freedom (Liberdade). Você paga para que eles não o deixem usar a internet obsessivamente. Eles desligam seu computador a cada 50 minutos ou a cada hora. Por que as pessoas deveriam pagar por algo que elas mesmas poderiam fazer facilmente, a menos que estejam obcecadas ou tenham se tornado dependentes? Eu posso chegar para você e dizer que tenho uma maneira brilhante de ganhar dinheiro: você me paga para eu desligar seu computador para você. Você vai me dizer que estou louca.
Publicado em: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/o-ambiente-digital-esta-alterando-nosso-cerebro-de-forma-inedita-diz-neurologista-britanica
“A Internet mudou a nossa percepção do tempo”, diz Nicholas Carr
Entrevista com Nicholas Carr, autor de "A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros" e finalista do Pulitzer. Carr tem sido um crítico dos efeitos da Internet no nosso cérebro. Ele diz que a velocidade e bombardeamento de informação constante estão fazendo com que percamos a capacidade de concentração e nos tornemos menos reflexivos.
O que é que o surpreendeu mais no avanço da Internet desde que a começou a usar?
O mais surpreendente foi a transformação de um meio de informação para um meio de mensagens – particularmente nos últimos anos, as pessoas tendem a usar a tecnologia para trocar mensagens pessoais, mais do que para procurar informação.
Desde o princípio que o email foi uma parte importante da Internet, mas a web era mais usada para a visita a páginas, para encontrar informação e explorar assuntos. À medida que usamos mais as redes sociais, a Internet torna-se mais num meio para enviar e receber mensagens. Não esperava que o uso da tecnologia mudasse tão drasticamente.
Perdemos a capacidade de afastar as distrações e de sermos pensadores atentos, de nos concentrarmos no nosso raciocínio
E como é que esse aumento na troca de mensagens afeta a forma como interagimos e pensamos?
A forma como a Internet se desenvolveu tornou-a mais distractiva, exigindo às pessoas que retenham constantemente pequenas partes de informação e que monitorizem pequenas correntes de informação. Uma das grandes mudanças nos últimos anos, com o advento de novas redes como o Facebook e o Twitter - e isso combinado com o aparecimento dos smartphones e dos pequenos computadores - é que a forma como a Internet funciona mudou. Portanto, passamos do modelo de ir a uma página web ver o que tinha para oferecer para o modelo de informação que está a correr constantemente e que aparece de vários sítios: do SMS, do email, das atualizações do Facebook e dos tweets. Isso encorajou as pessoas a aceitar interrupções constantes, a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Perdemos a capacidade de afastar as distrações e de sermos pensadores atentos, de nos concentrarmos no nosso raciocínio, ou seja, a forma como a tecnologia evoluiu nos últimos anos tornou-se mais distractiva; encoraja uma forma de pensar que é a de passar os olhos pela informação e desencoraja um pensamento mais atento.
A geração que cresceu entre o mundo analógico e o digital está entre essas duas formas de pensar e agir, mas quem é “nativo digital” está já imerso nessa realidade multitasking [de tarefas múltiplas] e distractiva que descreve. Isto não é mais uma mudança do que propriamente uma perda na forma como essa geração pensa?
Não estou convencido de que exista essa separação clara e definida entre uma geração e outra, a dos “nativos digitais” e a dos “imigrantes digitais”. A tecnologia é usada por mais velhos e mais novos e os efeitos tendem a ser os mesmos para a maioria. A diferença é que quanto mais cedo se está imerso na tecnologia – e é verdade que a tecnologia está a ser usada por pessoas cada vez mais novas –, maiores serão os efeitos na forma como aprendem a pensar. Uma das coisas que se sabem é que as grandes mudanças no nosso cérebro acontecem quando somos novos. Portanto, se as crianças estão imersas numa tecnologia que encoraja o multitasking e o pensamento distractivo, vão adaptar-se a isso e infelizmente não vão ter a oportunidade ou o incentivo para desenvolver modos de pensar mais contemplativos e reflexivos. Há o mito de que os “nativos digitais” não sofrem os efeitos das novas tecnologias, porque se adaptam desde cedo. Acontece que isso é completamente errado: são bastante influenciados pelos aspectos positivos e negativos da tecnologia, porque ela marca a forma como pensam desde o princípio.
Como é que imagina as principais mudanças na forma de pensar desta geração daqui a dez anos?
Não estou convencido de que exista essa separação clara e definida entre uma geração e outra, a dos “nativos digitais” e a dos “imigrantes digitais”. A tecnologia é usada por mais velhos e mais novos e os efeitos tendem a ser os mesmos para a maioria
As conexões do nosso cérebro formam-se durante esse período em que lançamos as fundações do nosso modo de raciocinar que perdura pelo resto das nossas vidas. Se a maior parte da nossa experiência se centra em olhar para um ecrã, em particular um ecrã de computador, que encoraja mudanças rápidas na nossa atenção, o multitasking e a atenção repartida, então esse passa o ser o modo como optimizamos o nosso cérebro para agir – treinamo-nos a nós próprios para pensar dessa forma. Por outro lado, se não dermos oportunidade para desenvolver outros modos de pensar mais atentos que requerem concentração – o tipo de pensamento que é encorajado, por exemplo, por um livro impresso, porque não há mais nada além das páginas –, isso vai influenciar a forma como pensamos e mais especificamente a estrutura do nosso cérebro. Essencialmente, estamos a fazer uma escolha ao disponibilizar a tecnologia para crianças cada vez mais novas, estamos a fazer com que elas pensem de uma forma que diria superficial, dando informação a toda a hora, dividindo a sua atenção. Não penso que isto seja a primeira vez que isto acontece com a tecnologia, mas a sociedade devia fazer julgamentos sobre a forma como usamos as nossas mentes baseados no que a tecnologia tem de bom e de mau.
No seu livro "A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros" fez uma analogia sobre as novas ferramentas com os mapas, que transformaram a nossa noção de tempo e de espaço, e, por exemplo, o relógio mecânico, que na altura também transformou a nossa noção do tempo. Por que acha que a Internet tem mais influência na nossa forma de pensar do que os mapas ou relógios tiveram na altura?
Acho que os mapas e os relógios não influenciaram completamente a forma como pensamos, antes encorajaram modos de pensar mais abstratos sobre o mundo, mudaram a nossa percepção do espaço e de tempo. Olhando para a Internet e para os computadores em geral: nunca tivemos tecnologia que usássemos tão intensamente durante todo o dia. Cada vez mais pessoas usam smartphones. Que modos de pensamento a tecnologia incentiva e que modos de pensamento desincentiva? Como disse, encoraja um modelo de pensamento mais disperso e desencoraja um pensamento mais atento. Algumas pessoas podem dizer que o pensamento mais tranquilo, contemplativo, não é muito importante, que deveríamos tornar-nos mais superficiais e obter informação mais rapidamente. Há outras pessoas, como eu, que defendem que há certos aspectos da mente humana a que só temos acesso quando prestamos atenção. Há provas de que a atenção é crucial para a formação de memória, para o pensamento crítico e conceptual e, por isso, essas formas de pensar são extremamente importantes para aproveitar todo o potencial da mente humana.
Falando da memória a longo prazo, uma das coisas que os aparelhos nos permitem fazer – o computador, o email, o telemóvel – é documentar e arquivar as nossas conversas, relações, muito mais do que antes. Como acha que a nossa relação com o passado vai ser afetada por isso?
Não tenho a certeza de que vá afetar o nosso passado. As pessoas tiraram fotografias, e mais recentemente fizeram vídeos, e uma das coisas que sabemos é que, quando estamos a registar estas coisas, achamos que é muito importante, mas depois na verdade não olhamos para elas, achamos um pouco chato revisitar as coisas do nosso passado. É verdade que o Facebook e outros meios nos permitem armazenar mais informações e imagens sobre a nossa vida, mas não tenho a certeza de que as pessoas passem, de facto, muito tempo a olhar para elas….
Há provas de que a atenção é crucial para a formação de memória, para o pensamento crítico e conceptual e, por isso, essas formas de pensar são extremamente importantes para aproveitar todo o potencial da mente humana
Ter acesso imediato a factos, à informação e às nossas interações parece influenciar o modo como formamos memórias. Há estudos que mostram que quanto mais se acredita que se vai encontrar algo através do Google, menos provável é que nos lembremos disso. Não há nada de errado nisso, sempre houve livros. O perigo aqui é que algumas pessoas pensem que, se tudo estiver disponível online, não temos de nos lembrar de nada, não temos de ter essa informação pessoal na nossa memória a longo prazo. A questão é que a memória pessoal é diferente daquilo que está online. Muita da riqueza do nosso pensamento vem da nossa capacidade de deslocar informação – factos, emoções – da nossa memória de curto prazo para a nossa memória a longo prazo. É através desse processo – daquilo a que os psicólogos chamam “consolidação da memória” – que ligamos aquilo que sabemos, aquilo que aprendemos, a nossa experiência com outros factos e experiências. E são essas conexões, essas conexões pessoais que fazemos entre toda a informação que está na nossa memória, que nos permitem pensar conceptualmente, ir além dos pequenos bocados de informação e factos que os computadores fornecem e formar um conhecimento pessoal único – o que na verdade desenvolve o eu pessoal. Por isso, há o perigo de confundirmos os dados de computador e que estão online com memória pessoal, que são coisas diferentes e desempenham papéis diferentes. Mas se sacrificamos a nossa memória pessoal porque acreditamos que podemos encontrar tudo online, então perdemos a base do nosso pensamento mais profundo.
Hoje a Internet, como observa, está refém da velocidade e da “alimentação” constante. Como é que os media podem tirar vantagens de outro tipo de velocidade da Internet?
Uma das coisas mais interessantes que a Internet está a mudar é a nossa percepção do tempo – está a fazer-nos esperar por respostas e informação muito rápidas e a treinar-nos para que, cada vez que clicamos num link, termos informação no segundo seguinte. Quando enviamos um SMS, um email, esperamos uma resposta muito rápida. Esta mudança da forma como percepcionamos o tempo e a nossa necessidade de resposta imediata influencia definitivamente a forma como usamos os media em geral. Esperamos muito mais estímulos e respostas muito mais rápidas do que as que tivemos no passado. Por um lado, há muitas coisas boas nisso. Por outro, isso desafia as organizações dedicadas a notícias. A distinção na qualidade, nas fontes de informação torna-se cada vez menos importante, porque as pessoas apenas querem muita coisa e rapidamente – e torna-se difícil para as empresas de media se distinguirem umas das outras e dizerem às pessoas para abrandar e passarem mais tempo em cada coisa que publicam. Não sei como é que a indústria dos media se vai adaptar e fazer a transição, porque ainda estamos no meio do processo.
Disse concordar com os críticos do Facebook e do Twitter que vêem estas redes sociais como meios para satisfazer a nossa vaidade e necessidade de auto-expressão. Como é que responde a outra corrente que as descreve como um bem valioso que mobiliza pessoas e produz conteúdo, tirando vantagem das pessoas que têm tempo livre para fazerem coisas a favor da comunidade?
Concordo com muitos desses argumentos. Uma das coisas boas da Internet é que permite às pessoas expressarem-se de mais formas do que no passado. Não sou contra a auto-expressão. O que acontece, particularmente com o Facebook, é que se tornou menos sobre auto-expressão profunda e tornou-se mais uma gestão de imagem, autopromoção, é a ansiedade de estar constantemente em conversa e a actualizar o perfil. De alguma maneira somos tão puxados pela nossa auto-imagem que estas ferramentas nos incentivam a pensar na forma como nos apresentamos a nós próprios, como se fôssemos uma criação mediática a toda a hora. E isso pode interferir com uma auto-expressão profunda. Mas cada rede é diferente – a forma como evoluíram fez com que se tivessem tornado mais uma auto-expressão rápida do que profunda.
Ainda é crítico de projetos como a Wikipédia?
Quando escrevi isso em 2005, a Wikipédia não era especialmente boa, embora recebesse já todo o tipo de elogios. Mas tenho de reconhecer que se tornou muito melhor. Em muitos aspectos é uma produção incrível de pessoas que se interessam por democratizar a informação. Melhorou e desempenha um papel muito importante de distribuição de informação grátis para pessoas que, de outro modo, teriam dificuldade em chegar a ela. Acho que há sempre o perigo de se tornar a única fonte de informação, em vez de ser apenas o ponto de partida.
Publicado em: http://www.publico.pt/tecnologia/noticia/a-internet-mudou-a-nossa-percepcao-do-tempo-1573458
Entrevista com Steven Johnson
Entrevista com Steven Johnson no programa Roda Viva.
Parte I: http://youtu.be/QX3MUHe5gZY
Parte II: http://youtu.be/JqzUHyhXhhY
Parte III: http://youtu.be/QQR1Aotohyg
Parte IV: http://youtu.be/fIrROkgkB2Y
Parte V: http://youtu.be/kevzqAQ6rxI
Parte VI: http://youtu.be/uvy2fSWZRvM
Parte VII: http://youtu.be/zq10g7QYmSw
Parte VIII: http://youtu.be/Qj9KmMKL5oM
Parte I: http://youtu.be/QX3MUHe5gZY
Parte II: http://youtu.be/JqzUHyhXhhY
Parte III: http://youtu.be/QQR1Aotohyg
Parte IV: http://youtu.be/fIrROkgkB2Y
Parte V: http://youtu.be/kevzqAQ6rxI
Parte VI: http://youtu.be/uvy2fSWZRvM
Parte VII: http://youtu.be/zq10g7QYmSw
Parte VIII: http://youtu.be/Qj9KmMKL5oM
"A internet está errada"
Jaron Lanier, o criador do termo "realidade virtual", teme o "maoísmo digital" e critica o modo como funcionam as redes sociais.
Aos 50 anos recém-completados, o americano Jaron Lanier pode parecer alguém que assistiu a Matrix e O Exterminador do Futuro mais vezes do que deveria. Por suas ideias sobre a internet, contudo, a revista Time o elegeu, no começo do ano, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Lanier foi um dos pioneiros do Vale do Silício, onde hoje se concentram as maiores empresas de tecnologia do planeta. Na década de 80, ele fundou a VPL Research, primeira empresa a vender equipamentos que permitiam ao usuário “entrar” em mundos criados no computador. Cunhou a expressão “realidade virtual” para descrever a experiência. Lanier foi também um dos fundadores da Wired, a mais importante revista sobre o mundo digital dos Estados Unidos. Recentemente, contudo, Lanier se tornou um dissidente em seu próprio meio. Seu novo livro, Gadget – Você Não É um Aplicativo (Saraiva), diz que as figuras mais brilhantes do Vale do Silício estão indo longe demais em sua valorização da tecnologia e sustenta que a internet pode conduzir a humanidade a uma espécie de “maoísmo digital”.
VEJA: O que há de errado com a internet?
Jaron Lanier: Primeiramente, gostaria de dizer que sou totalmente a favor da tecnologia. Ela deu opções à humanidade para se aperfeiçoar, para se tornar melhor. Por causa das minhas críticas, frequentemente as pessoas cometem o erro de achar que eu me voltei contra a internet, o que não é verdade. Minha questão é outra. Toda nova tecnologia é também uma espécie de declaração filosófica sobre o que pensamos ser importante na vida. Todo design tecnológico traz dentro de si uma filosofia. Por exemplo, quando olharmos para um carro moderno, ele nos diz que eficiência é um valor essencial, mas também que conforto é importante, que segurança é importante, que essas são coisas pelos quais vale a pena lutar. Da mesma maneira, softwares e aplicativos têm um modo de encarar o mundo embutido em seus respectivos designs. Eles possibilitam um certo tipo de experiência, enquanto deixam outras vivências de lado. Cinquenta anos atrás, quando as primeiras ideais sobre uma rede mundial de computadores começaram a circular, vários modelos de “internet” – entre aspas, porque a palavra usada nem era essa – competiam. Venceu um modelo que, na minha opinião, está longe de ser o melhor. Há vários motivos para esmiuçar, mas, se tivesse de resumir a ideia numa fórmula, diria que o perigo é sermos conduzidos para uma espécie de maoísmo digital.
VEJA: Qual modelo de rede deveria ter prevalecido?
Jaron Lanier: Eu proponho um retorno à ideia original de internet, que remonta à década de 1960. O primeiro esboço sobre a construção de uma rede mundial de computadores foi escrito em 1965 por Ted Nelson, um dos pioneiros da tecnologia da informação. O projeto tinha um nome diferente, Xanadu. A proposta era de que cada pessoa fosse capaz de pôr coisas na rede e saber quem usou seu conteúdo, ganhando dinheiro com isso. Numa rede estruturada dessa forma, surge um tipo diferente de interação. Ao contrário do que ocorre na internet atual, não existe a ideia de que tudo é de graça, de que tudo está disponível. O ponto de partida é diferente, e inclui as ideias de responsabilidade e confiança, sem as quais nenhum tipo de relacionamento verdadeiro é possível, seja ele de ordem pessoal ou econômica – como quando dizemos que sem confiança não se fecham negócios.
VEJA: É possível aproximar a internet atual desse modelo?
Jaron Lanier:No momento, o único jeito de melhorar a internet é criando punição. Se você for mau com as pessoas, se infectar os computadores alheios, terá o acesso cortado, será processado, enfim, vai sofrer algum tipo de pena. Mas você não pode criar uma sociedade apenas baseada no castigo, as pessoas precisam ter algum tipo de benefício. Se você tem uma sociedade na qual a única maneira de modificar o comportamento das pessoas é por meio da punição, então você vai criar uma sociedade negativa, com um traço autoritário. Uma boa sociedade é aquele em que as pessoas buscam benefícios por meio da colaboração, em que participar dessa sociedade faz bem a você. O problema com a internet que temos é que ela não faz coisas boas o suficiente pelas pessoas. Sim, ela é divertida, ajuda a arrumar namoro, mas deveria ser capaz de, em uma sociedade capitalista, ajudar a fazer dinheiro a partir dela.
VEJA: Não há um monte de gente ganhando dinheiro com a internet?
Jaron Lanier: Não, na verdade há bem pouca gente. Hoje, a maior parte do dinheiro na internet vem da publicidade, e apenas uns poucos atores, como o Google, se beneficiam dele. Uma das coisas que acho terrivelmente irritantes é a ideia de que todos os artistas, músicos e escritores, de que todas as pessoas com algum talento, terão sucesso ao se promover na internet. Os casos de sucesso são raríssimos – e por sucesso quero dizer ganhar o bastante para sobreviver dessa atividade. Eu tentei arduamente achar músicos que se promoveram na internet e conseguiram se sustentar a partir dela e não passaram de cem, nos Estados Unidos. Eu pensei, quando comecei a procurar, que seriam milhares. Essa ideia é falsa, é uma grande ilusão. Não estou falando de músicos que já eram famosos antes, porque esses não contam, isso não vai ajudar a próxima geração. Chegamos a um momento em que precisamos aceitar isso, reconhecer que é uma bela ideia, mas simplesmente não funciona. Eu procurei por músicos porque eu pertenço à categoria, penso em música o tempo todo, mas isso se aplica a outras atividades também.
VEJA: Em seu livro, o senhor propõe um sistema universal de micropagamentos. Como isso funcionaria?
Jaron Lanier: Há várias maneiras de fazer isso. Quanto pagaríamos por uma música, por exemplo? Isso ficaria a critério da pessoa que a criou. Se o músico desejar colocar na internet as músicas de graça porque ele acredita que elas vão promovê-lo, tudo bem. Se ele acredita que tem um número pequeno de fãs que são muito ricos e quiser cobrar alto, tudo bem. O ponto central da discussão é que o preço deve ficar a cargo de quem cria. Podemos imaginar uma sociedade em que não se vai mais pagar pelo acesso à internet, na qual isso vai se tornar um direito universal. Todo mundo terá uma só conta e, se escutar uma música, deverá pagar uma pequena quantia para o artista, mas, ao mesmo tempo, se alguém se assistir seu vídeo, se ler seu post, ler seu twitter, seja lá o que for, você também receberá uma quantia. Será uma forma de troca.
VEJA: Esse sistema não vai contra o espírito livre da internet?
Jaron Lanier: Isso não tem nada a ver com liberdade. Livre não é sinônimo de grátis. Como eu disse, a ideia original da internet fazia dela uma espécie de mercado sem fronteiras. Foi nas décadas de 70 e 80 que surgiu a ideia de que tudo deveria ser grátis. Nessa época, as pessoas nos ambientes acadêmicos americanos tendiam a ser maoístas. Nas salas em que era discutida a internet do futuro eles entravam gritando “o dinheiro é mau”. Muitos dos pioneiros da internet nutriam fantasias comunistas. O resultado foi o pior dos dois modelos: vivemos em um mundo capitalista, cujas recompensas não chegam a quem vive de seu cérebro e de seus talentos. Essencialmente, o que fizemos foi prejudicar as parcelas criadoras de nossa sociedade.
VEJA: Como convencer as pessoas a pagar por algo que elas têm de graça, ainda que de forma ilegal?
Jaron Lanier: As pessoas tratam bem o seu vizinho porque querem ser bem tratadas por ele. O que estou querendo dizer é que a esperança não está em forçar as pessoas a pagar, mas em criar um mundo em que é melhor para todos pagar – e ser pago.
VEJA: As redes sociais mostram a internet por um prisma mais positivo?
Jaron Lanier: Creio que não. Nesses programas, há uma redefinição das condições básicas da vida humana. Por exemplo, o conceito de estar conectado a outra pessoa é muito diferente daquele que observamos no mundo real. No mundo real, para ter um amigo é preciso um certo tipo de investimento. Leva tempo. No mundo da internet, você cria, de imediato, uma sensação de ligação. Não há nada errado com isso, pode ser divertido, desde que você não acredite que essa seja uma ligação real. Outra coisa: nas redes sociais, você cria uma versão simplificada de você mesmo para que o software possa entender: esse é o status do meu relacionamento, estes são meus interesses, este é o tipo de música que eu gosto. São informações simples que o computador pode entender, catalogar, processar. Mas é claro que nenhuma pessoa, a menos que seja um idiota, pode ser representada por essas definições. Elas são como uma caricatura. Enquanto uma pessoa lembra qual a diferença entre essa versão simplificada e a realidade, não há nada de errado com isso. O problema é se com o uso, ao longo dos anos, você começa a ver a si mesmo de acordo com essa definição simplificada. É muito fácil neste mundo online, por exemplo, você começar a ser mais rude com as pessoas. A razão disso é que você não está mais reagindo a pessoas reais, mas a versões caricaturais de indivíduos. É fácil ser rude com um cartum. O que a maioria não sabe é que existe uma ideologia por trás desses programas – uma ideologia compartilhada por quase todos os engenheiros brilhantes que circulam pelos corredores das maiores empresas do Vale do Silício. Boa parte da comunidade tecnológica nutre a fantasia de que estamos a caminho de um futuro pós-humano – de que a internet é o embrião de um cérebro gigante a que todos estaremos conectados, como uma nova espécie definida pelo coletivo.
VEJA: Isso não é ficção científica?
Jaron Lanier: Atualmente existe algo chamado Universidade da Singularidade, bem no meio do Vale do Silício. Ela é alimentada com dinheiro do Google, do Yahoo!, de outras instituições ricas e influentes. Lá, as pessoas obtêm seus diplomas absorvendo, precisamente, esses conceitos que eu mencionei. Esse ideario, que prepara o caminho para a vida artificial, vem se tornando popular. E hoje os tecnólogos têm tanta influência no mundo quanto os políticos ou os banqueiros. Se não tiverem mais.
VEJA: Qual é a ideia central desse futuro pós-humano?
Jaron Lanier: A de que a experiência de estar vivo, de estar consciente, é algo que os computadores também podem experimentar. Basicamente, eles estão dizendo que não existe nada especial em relação aos seres humanos, que somos, na essência, robôs biológicos. É tudo muito interessante intelectualmente, mas creio que não olhamos a fundo as implicações desse modo de pensar. Eu acredito que um novo humanismo é necessário neste momento – um humanismo que se contraponha a esse modo de pensar. Eu prefiro celebrar o triunfo humano, não o das máquinas e da engenharia. Você pode pensar que isso é uma coisa muito simples de afirmar, que é muito banal. Mas no Vale do Silício, onde boa parte do pensamento mais avançado sobre tecnologia está em andamento, o que eu acabei de dizer causa irritação.
VEJA: Como o senhor enxerga esse futuro?
Jaron Lanier: Volto à minha ideia do maoísmo digital. Na visão de quem acha que as máquinas são mais relevantes que as pessoas, o que importa é pôr tudo na internet, contribuir para esse cérebro global que deve ter prioridade sobre qualquer indivíduo – e, se preciso, expropriá-lo das suas criações. De forma muito esquisita, essa filosofia anti-humana tem ligações com o antigo pensamento comunista e dá à internet um desenho que, para mim, é um terrível engano.
Link da entrevista: http://veja.abril.com.br/noticia/vida-digital/jaron-lanier-a-internet-esta-errada
Jaron Lanier: Primeiramente, gostaria de dizer que sou totalmente a favor da tecnologia. Ela deu opções à humanidade para se aperfeiçoar, para se tornar melhor. Por causa das minhas críticas, frequentemente as pessoas cometem o erro de achar que eu me voltei contra a internet, o que não é verdade. Minha questão é outra. Toda nova tecnologia é também uma espécie de declaração filosófica sobre o que pensamos ser importante na vida. Todo design tecnológico traz dentro de si uma filosofia. Por exemplo, quando olharmos para um carro moderno, ele nos diz que eficiência é um valor essencial, mas também que conforto é importante, que segurança é importante, que essas são coisas pelos quais vale a pena lutar. Da mesma maneira, softwares e aplicativos têm um modo de encarar o mundo embutido em seus respectivos designs. Eles possibilitam um certo tipo de experiência, enquanto deixam outras vivências de lado. Cinquenta anos atrás, quando as primeiras ideais sobre uma rede mundial de computadores começaram a circular, vários modelos de “internet” – entre aspas, porque a palavra usada nem era essa – competiam. Venceu um modelo que, na minha opinião, está longe de ser o melhor. Há vários motivos para esmiuçar, mas, se tivesse de resumir a ideia numa fórmula, diria que o perigo é sermos conduzidos para uma espécie de maoísmo digital.
VEJA: Qual modelo de rede deveria ter prevalecido?
Jaron Lanier: Eu proponho um retorno à ideia original de internet, que remonta à década de 1960. O primeiro esboço sobre a construção de uma rede mundial de computadores foi escrito em 1965 por Ted Nelson, um dos pioneiros da tecnologia da informação. O projeto tinha um nome diferente, Xanadu. A proposta era de que cada pessoa fosse capaz de pôr coisas na rede e saber quem usou seu conteúdo, ganhando dinheiro com isso. Numa rede estruturada dessa forma, surge um tipo diferente de interação. Ao contrário do que ocorre na internet atual, não existe a ideia de que tudo é de graça, de que tudo está disponível. O ponto de partida é diferente, e inclui as ideias de responsabilidade e confiança, sem as quais nenhum tipo de relacionamento verdadeiro é possível, seja ele de ordem pessoal ou econômica – como quando dizemos que sem confiança não se fecham negócios.
VEJA: É possível aproximar a internet atual desse modelo?
Jaron Lanier:No momento, o único jeito de melhorar a internet é criando punição. Se você for mau com as pessoas, se infectar os computadores alheios, terá o acesso cortado, será processado, enfim, vai sofrer algum tipo de pena. Mas você não pode criar uma sociedade apenas baseada no castigo, as pessoas precisam ter algum tipo de benefício. Se você tem uma sociedade na qual a única maneira de modificar o comportamento das pessoas é por meio da punição, então você vai criar uma sociedade negativa, com um traço autoritário. Uma boa sociedade é aquele em que as pessoas buscam benefícios por meio da colaboração, em que participar dessa sociedade faz bem a você. O problema com a internet que temos é que ela não faz coisas boas o suficiente pelas pessoas. Sim, ela é divertida, ajuda a arrumar namoro, mas deveria ser capaz de, em uma sociedade capitalista, ajudar a fazer dinheiro a partir dela.
VEJA: Não há um monte de gente ganhando dinheiro com a internet?
Jaron Lanier: Não, na verdade há bem pouca gente. Hoje, a maior parte do dinheiro na internet vem da publicidade, e apenas uns poucos atores, como o Google, se beneficiam dele. Uma das coisas que acho terrivelmente irritantes é a ideia de que todos os artistas, músicos e escritores, de que todas as pessoas com algum talento, terão sucesso ao se promover na internet. Os casos de sucesso são raríssimos – e por sucesso quero dizer ganhar o bastante para sobreviver dessa atividade. Eu tentei arduamente achar músicos que se promoveram na internet e conseguiram se sustentar a partir dela e não passaram de cem, nos Estados Unidos. Eu pensei, quando comecei a procurar, que seriam milhares. Essa ideia é falsa, é uma grande ilusão. Não estou falando de músicos que já eram famosos antes, porque esses não contam, isso não vai ajudar a próxima geração. Chegamos a um momento em que precisamos aceitar isso, reconhecer que é uma bela ideia, mas simplesmente não funciona. Eu procurei por músicos porque eu pertenço à categoria, penso em música o tempo todo, mas isso se aplica a outras atividades também.
VEJA: Em seu livro, o senhor propõe um sistema universal de micropagamentos. Como isso funcionaria?
Jaron Lanier: Há várias maneiras de fazer isso. Quanto pagaríamos por uma música, por exemplo? Isso ficaria a critério da pessoa que a criou. Se o músico desejar colocar na internet as músicas de graça porque ele acredita que elas vão promovê-lo, tudo bem. Se ele acredita que tem um número pequeno de fãs que são muito ricos e quiser cobrar alto, tudo bem. O ponto central da discussão é que o preço deve ficar a cargo de quem cria. Podemos imaginar uma sociedade em que não se vai mais pagar pelo acesso à internet, na qual isso vai se tornar um direito universal. Todo mundo terá uma só conta e, se escutar uma música, deverá pagar uma pequena quantia para o artista, mas, ao mesmo tempo, se alguém se assistir seu vídeo, se ler seu post, ler seu twitter, seja lá o que for, você também receberá uma quantia. Será uma forma de troca.
VEJA: Esse sistema não vai contra o espírito livre da internet?
Jaron Lanier: Isso não tem nada a ver com liberdade. Livre não é sinônimo de grátis. Como eu disse, a ideia original da internet fazia dela uma espécie de mercado sem fronteiras. Foi nas décadas de 70 e 80 que surgiu a ideia de que tudo deveria ser grátis. Nessa época, as pessoas nos ambientes acadêmicos americanos tendiam a ser maoístas. Nas salas em que era discutida a internet do futuro eles entravam gritando “o dinheiro é mau”. Muitos dos pioneiros da internet nutriam fantasias comunistas. O resultado foi o pior dos dois modelos: vivemos em um mundo capitalista, cujas recompensas não chegam a quem vive de seu cérebro e de seus talentos. Essencialmente, o que fizemos foi prejudicar as parcelas criadoras de nossa sociedade.
VEJA: Como convencer as pessoas a pagar por algo que elas têm de graça, ainda que de forma ilegal?
Jaron Lanier: As pessoas tratam bem o seu vizinho porque querem ser bem tratadas por ele. O que estou querendo dizer é que a esperança não está em forçar as pessoas a pagar, mas em criar um mundo em que é melhor para todos pagar – e ser pago.
VEJA: As redes sociais mostram a internet por um prisma mais positivo?
Jaron Lanier: Creio que não. Nesses programas, há uma redefinição das condições básicas da vida humana. Por exemplo, o conceito de estar conectado a outra pessoa é muito diferente daquele que observamos no mundo real. No mundo real, para ter um amigo é preciso um certo tipo de investimento. Leva tempo. No mundo da internet, você cria, de imediato, uma sensação de ligação. Não há nada errado com isso, pode ser divertido, desde que você não acredite que essa seja uma ligação real. Outra coisa: nas redes sociais, você cria uma versão simplificada de você mesmo para que o software possa entender: esse é o status do meu relacionamento, estes são meus interesses, este é o tipo de música que eu gosto. São informações simples que o computador pode entender, catalogar, processar. Mas é claro que nenhuma pessoa, a menos que seja um idiota, pode ser representada por essas definições. Elas são como uma caricatura. Enquanto uma pessoa lembra qual a diferença entre essa versão simplificada e a realidade, não há nada de errado com isso. O problema é se com o uso, ao longo dos anos, você começa a ver a si mesmo de acordo com essa definição simplificada. É muito fácil neste mundo online, por exemplo, você começar a ser mais rude com as pessoas. A razão disso é que você não está mais reagindo a pessoas reais, mas a versões caricaturais de indivíduos. É fácil ser rude com um cartum. O que a maioria não sabe é que existe uma ideologia por trás desses programas – uma ideologia compartilhada por quase todos os engenheiros brilhantes que circulam pelos corredores das maiores empresas do Vale do Silício. Boa parte da comunidade tecnológica nutre a fantasia de que estamos a caminho de um futuro pós-humano – de que a internet é o embrião de um cérebro gigante a que todos estaremos conectados, como uma nova espécie definida pelo coletivo.
VEJA: Isso não é ficção científica?
Jaron Lanier: Atualmente existe algo chamado Universidade da Singularidade, bem no meio do Vale do Silício. Ela é alimentada com dinheiro do Google, do Yahoo!, de outras instituições ricas e influentes. Lá, as pessoas obtêm seus diplomas absorvendo, precisamente, esses conceitos que eu mencionei. Esse ideario, que prepara o caminho para a vida artificial, vem se tornando popular. E hoje os tecnólogos têm tanta influência no mundo quanto os políticos ou os banqueiros. Se não tiverem mais.
VEJA: Qual é a ideia central desse futuro pós-humano?
Jaron Lanier: A de que a experiência de estar vivo, de estar consciente, é algo que os computadores também podem experimentar. Basicamente, eles estão dizendo que não existe nada especial em relação aos seres humanos, que somos, na essência, robôs biológicos. É tudo muito interessante intelectualmente, mas creio que não olhamos a fundo as implicações desse modo de pensar. Eu acredito que um novo humanismo é necessário neste momento – um humanismo que se contraponha a esse modo de pensar. Eu prefiro celebrar o triunfo humano, não o das máquinas e da engenharia. Você pode pensar que isso é uma coisa muito simples de afirmar, que é muito banal. Mas no Vale do Silício, onde boa parte do pensamento mais avançado sobre tecnologia está em andamento, o que eu acabei de dizer causa irritação.
VEJA: Como o senhor enxerga esse futuro?
Jaron Lanier: Volto à minha ideia do maoísmo digital. Na visão de quem acha que as máquinas são mais relevantes que as pessoas, o que importa é pôr tudo na internet, contribuir para esse cérebro global que deve ter prioridade sobre qualquer indivíduo – e, se preciso, expropriá-lo das suas criações. De forma muito esquisita, essa filosofia anti-humana tem ligações com o antigo pensamento comunista e dá à internet um desenho que, para mim, é um terrível engano.
Link da entrevista: http://veja.abril.com.br/noticia/vida-digital/jaron-lanier-a-internet-esta-errada
Livro explora reação às novas tecnologias
Nelson de Sá, da Folha de São Paulo, entrevista William Powers, autor do livro O BlackBerry de Hamlet:
Folha - Seu livro abre com Sócrates. No diálogo que você menciona, ele fala contra a palavra escrita e Fedro fala contra a cidade, o ambiente. Essas visões têm paralelo com os dias de hoje?
William Powers: Sim. Comecei a parte filosófica do livro com esse diálogo porque ele levanta temas que acredito que são importantes hoje. Um é que nós somos criaturas sociais, queremos conhecer nosso ambiente e nosso mundo e, para prosperar nele, precisamos de informação e de outras pessoas. Sócrates, em seu amor pela cidade e pela comunicação oral, é um grande exemplo disso. Você pode dizer que ele era viciado na palavra falada. Mas, da maneira como Fedro entende, em parte por causa do conselho que ouve de um médico, nós também precisamos de alguma distância de nossa conectividade, de modo a poder fazer algo útil com ela. Para refletir sobre ela; para talvez levar o mundo em que vivemos a uma situação melhor; para refletir sobre aquelas informações e fazer algo novo com elas e levar de volta ao mundo.
Isso é o que a caminhada simboliza para mim, é a importância de manter alguma distância da multidão nas nossas vidas. Para mim, a multidão de Atenas, a cidade movimentada, é uma espécie de metáfora ou substituto para a movimentada multidão digital em que estamos navegando hoje, todos os dias.
Mas Sócrates também é cético com a novíssima tecnologia que chegou, a palavra escrita, e para mim isso é um lembrete de que, mesmo quando buscamos nos distanciar da tecnologia, não devemos ter a mente fechada. Não devemos temer a tecnologia da maneira como algumas pessoas temem hoje.
Não sei quanto ao Brasil, mas aqui temos pessoas que são basicamente luditas, que acreditam que o mundo está sendo destruído pela conectividade digital. Eu não acredito nisso, sou um otimista, e queria mostrar que mesmo alguém tão brilhante como Sócrates poderia entender errado. Essa é uma espécie de alerta na história: tenha consciência de que não devemos ver só o lado ruim da nova tecnologia, mas também o lado bom, os benefícios. O que, é claro, Platão viu, porque ele decidiu usar exatamente a tecnologia que Sócrates condena, para registrar o diálogo.
Folha - A metáfora mais interessante, ao menos para mim, é exatamente aquela que você leva ao título, o BlackBerry de Hamlet. A "tábua" mencionada já era uma metáfora em si mesma, para a visão de Shakespeare da nova tecnologia da época, que era a imprensa.
William Powers: Sim.
Folha - É a mesma ideia ou você vê diferença com o que menciona de Platão?
William Powers: Eu falo bastante sobre o livro, agora já tem um ano e meio que venho tratando publicamente dele, e na verdade essa é a mais difícil de abordar, embora seja o título, porque as ideias que levanto naquele capítulo são um pouco sutis. Vou tentar abordar os diferentes níveis que trabalho nele.
Em primeiro lugar, sim, a tábua de Hamlet faz um paralelo com o nosso próprio tempo tecnológico. É um aparelho, uma nova invenção que as pessoas amavam e na qual eram viciadas, durante uma revolução tecnológica. O que é diferente é que ela é uma combinação entre o velho e o novo, usa uma tecnologia, a escrita à mão, que as pessoas pensavam que morreria, na era da imprensa. E que na verdade se tornou mais útil, num tempo em que as pessoas se sentiam oprimidas pelo peso de todos aqueles impressos sendo empilhados ao seu redor. E pela incapacidade de estar a par de tudo, um excesso [overload] de informação, digamos.
Elas podiam escrever algo temporariamente e fazer com que desaparecesse, trazendo portanto alguma ordem às suas vidas malucas e se mostrando capazes de navegar a revolução mais efetivamente. Nesse sentido, era diferente dos nossos aparelhos, que tendem ao excesso hoje. E é um modelo de como a tecnologia pode nos ajudar a ir para a frente, para um quadro melhor, e tornar a carga um pouco mais leve.
Em segundo lugar, eu simplesmente gosto da linguagem metafórica que Shakespeare usa, quando Hamlet fala de seu "globo alterado" e de "apagar a tábua da mente", tentando se livrar de toda aquela desordem. Isso me fez lembrar tanto os desafios que enfrentamos, com nossas distrações de hoje, como o desejo que temos de ser capazes de aliviar a carga e tornar a vida um pouco mais administrável.
Todas essas coisas estão de certa maneira empacotadas nesse capítulo. Sou muito cético das pessoas que dizem que o futuro será digital e não haverá utilidade para velhas tecnologia como o papel impresso. Realmente acho que não é o caso. Portanto, a maneira como o BlackBerry de Hamlet, a tábua, usa a velha tecnologia da escrita à mão tem a ver com isso também.
Folha - O subtítulo de seu estudo original em Harvard, em 2006, era "Por que o papel é eterno". Isso não o torna também um ludita?
William Powers: Não, não. No ensaio eu argumento que a razão por que o papel será eterno, na minha opinião, é que as tecnologias digitais vão evoluir, de maneira que farão por nós o que o papel sempre fez. O papel pode até desaparecer, mas será como se não percebêssemos, porque teremos aparelhos que trabalham por nós da mesma maneira que o papel faz.
Por exemplo, existe essa visão de um e-book que terá centenas de páginas e que você vai tocar e sentir como um papel, virar as páginas com as mãos. O que seria muito útil, penso eu, porque somos seres corporificados e é bom trabalhar com uma tecnologia corporificada. E o e-book será atualizável e você poderá transformá-lo em qualquer livro que queira. Portanto, acredito que estamos caminhando para um futuro que, de forma irônica, será moldado pela nossa experiência com o impresso.
Ainda que gostemos de pensar que estamos vivendo uma ruptura com o passado, eu vejo mais como uma evolução contínua, uma tecnologia se sobrepondo à outra. É a ideia que eu estava querendo lançar com o ensaio, que eu imaginava que teria um papel muito maior no livro. No rascunho, era um capítulo inteiro. Mas meu editor ficava dizendo que ele não cabia no livro e eu deveria deixá-lo como ensaio. Foi o que decidi fazer, no fim.
Folha - Li um texto na "New Yorker" que elogia, mas também questiona seu livro. Pega a parte que oferece uma saída ao vício tecnológico - desligar tudo o que é digital - e aponta como contradição que você aceita manter a TV ligada. A televisão não assusta mais, como antes?
William Powers: Em primeiro lugar, sobre esse texto, eu fiquei feliz de ser discutido na "New Yorker", mas não penso que o autor, Adam Gopnik, leu o livro todo, porque me classifica na categoria errada, das pessoas que gostariam que as novas tecnologias nunca tivessem aparecido. E eu penso que sou de outra categoria, das pessoas que acreditam que estavamos atravessando um ciclo que sempre atravessamos e que é algo normal. Acho que o livro foi mal interpretado.
Mas sim, quanto à questão da televisão, como eu nasci nos anos 60, para mim ela é perfeitamente natural, não uma ruptura. E acredito que esse é um aspecto natural de todo período que você atravessa. As pessoas que nascem com a tecnologia se ajustam mais facilmente.
Ouço muito uma pergunta, "isso não significa que os jovens de hoje não têm problemas com o excesso de informação e com o vício digital?". E eu sempre contraponho que encontro muitos jovens que se sentem conectados com o livro, que agora é parte do currículo de um monte de universidades. Porque nossa atenção só vai até uma certa capacidade de expansão, pela natureza do cérebro. Isso significa que, em algum nível, todos estamos tendo de nos ajustar a essa nova inundação de informação. É uma inundação muito rica, com grande potencial, mas também um desafio.
Folha - Você esteve no último festival South by Southwest, que priorizou essa corrida para lidar com o excesso de informação digital.
William Powers: Sim.
Folha - Neste ano, além do excesso de informação, o SXSW deve focar também realidade aumentada ["augmented reality"] e inteligência expandida, esse tipo de discussão. Como você vê essa questão, da tecnologia tornando nossas mentes e nossas realidades maiores e sem limites?
William Powers: Acredito que estamos no caminho de um sentido expandido de realidade, de uma conexão expandida com a realidade, graças às nossas ferramentas. Falo de uma dessas visões no livro, em que as paredes dos prédios serão cabeadas e a capacidade de conexão com a informação estará ao nosso redor _e portanto será como se parte de nossas mentes estivesse lá fora, no mundo. Teremos uma espécie de consciência expandida, o que vejo como uma possibilidade maravilhosa. Acredito que chegaremos lá mais efetivamente se nos mantivermos com os pés no chão.
Lembre-se que também trazemos muito poder e potencial à equação. As máquinas são extraordinárias e vão nos ajudar, mas muitas vezes não levamos em conta que a mente humana é o aparelho mais complexo e poderoso criado no Universo, de que temos notícia. E somos tão importantes para a equação quanto qualquer computador. Daí essa ideia de equilíbrio entre nossa vidas digitais e não digitais ser tão crucial para mim. Porque queremos manter nossas mentes tão arraigadas na realidade e trazer nossas próprias conclusões e conexões à mesa, para que a realidade expandida seja tão rica quanto possível.
Folha - Ao mesmo tempo, você está agora mergulhado na tecnologia, com a Bluefin Labs.
William Powers: Vou trabalhar nesse projeto ao longo do próximo ano. É uma startup de tecnologia, que saiu do MIT, e criou novas maneiras de identificar padrões e extrair significados da conversação de mídia social, especialmente do Twitter. Vou aplicar a tecnologia na campanha presidencial americana. Será uma nova maneira de ler o público. O livro tem uma série de mensagens, e uma delas é sobre o potencial criativo do digital. Vejo esse projeto como uma tentativa de ir mais fundo, como escrevo no livro, de levar a tecnologia a lugares mais profundos.
Link da entrevista: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1046403-livro-explora-reacao-as-novas-tecnologias.shtml
A vida como um espetáculo sem fim
Do Orkut ao Big Brother, dos dramas e tragédias cotidianos às fofocas envolvendo celebridades, vivemos hoje mergulhados num ambiente de exposição total da intimidade. Mais que um modismo passageiro, a espetacularização da vida é um fenômeno que revela uma nova forma de ser e de viver. O modelo da identidade baseado na vida interior de cada um foi substitído por outro, em que as pessoas só existem se são vistas pelo outro: o que conta agora são as aparências, os sinais visíveis, a superfície, a imagem. Mas qual será o impacto disso na sociedade, a longo prazo? Paula Sibilia é doutora em Comunicação pela UFRJ e pesquisadora de temas culturais contemporâneos. è autora de "O show do eu - a intimidade como espetáculo" e "O homem pós-orgânico – Corpo, subjetividade e tecnologias digitais.
G1: Que análise você faz do papel da mídia no recente sequestro de uma adolescente e no episódio da briga entre a atriz Luana Piovani e seu ex-namorado?
Paula Sibilia: Tanto no caso do seqüestro de uma ex-anônima que se tornou tragicamente famosa como na briga de casal dessas celebridades midiáticas, trata-se de uma transformação da velha intimidade em espetáculo para o consumo das massas. Hoje não temos mais tempo para ler aquelas longas ficções oitocentistas – sacudidos como estamos na vertiginosa aceleração contemporânea – mas parecemos dispor de muito tempo e disposição para dedicar a esse tipo de história, as peripécias banais da suposta vida privada das celebridades ou os acontecimentos dramáticos da intimidade desses seres outrora anônimos – que, de repente, chamam a atenção do público porque “parecem uma novela”. Mas eles são reais, e é justamente por isso que interessam. Por quê? Talvez porque, quanto mais a vida cotidiana é ficcionalizada e estetizada, mais avidamente se procuram as experiências autênticas, verdadeiras, não encenadas: algo “realmente real” ou, pelo menos, que assim pareça. Uma das manifestações dessa fome de veracidade na cultura contemporânea é o anseio por consumir lampejos da intimidade alheia. Hoje tudo vende mais se for real, mesmo que se trate de versões dramatizadas de uma realidade qualquer. Isso parece uma contradição, mas são duas faces da mesma moeda: o excesso de espetacularização que impregna nosso ambiente midiatizado anda de mãos dadas com esse renovado auge do realismo, de tudo que se apresenta como informação verdadeira. Como, há quase um século, escreveu Walter Benjamin, hoje somos ricos em informações verificáveis, mas pavorosamente carentes de experiências sólidas e das narrativas mágicas da ficção.
G1: Uma coisa que chama a atenção no Orkut e outras redes sociais é que as pessoas tiram fotos delas próprias, o que sugere uma certa solidão, além da compulsão exibicionista.
Paula Sibilia: Eu acredito que a solidão seja um ingrediente fundamental nesse processo. A capacidade de estarmos a sós – que foi primordial para a construção da subjetividade naqueles velhos tempos modernos – se converteu numa habilidade cada vez mais rara, e sem muito sentido, contra a qual tudo parece conspirar. Por isso, se a principal obra dos autores e narradores desses novos gêneros autobiográficos interativos costuma ser a criação de um personagem, esse personagem se chama eu e jamais está sozinho. Pois tudo na vida dos personagens acontece sob os holofotes atentos da leitura, sob as lentes das câmeras de Hollywood ou mesmo de uma modesta webcam caseira. Esse personagem está sempre à vista, nas telas do mundo inteiro. Eis uma das grandes diferenças entre pessoa e personagem: este último sempre tem alguém para observar o que ele faz, acompanhar com avidez todos os seus atos, pensamentos, sentimentos e emoções. Mas nem sempre há testemunhas do nosso heroísmo ou das nossas misérias de cada dia; com demasiada freqüência, inclusive, ninguém nos olha. E, na sociedade do espetáculo e da visibilidade, se ninguém nos vê podemos pensar que simplesmente não existimos. Daí o desespero que hoje leva tanta gente a se mostrar e a se tornar visível, espetacularizando o próprio eu e criando uma intimidade que melhor seria definida como “extimidade”.
G1: Qual pode ser o impacto dessa multiplicação de “ficções pessoais” na sociedade?
Paula Sibilia: Talvez uma certa fragilidade, que decorre desse tipo de eu construído na exposição e na visibilidade, e que portanto precisa desesperadamente do olhar alheio para confirmar a sua existência. Junto com todos os alívios e as possibilidades que se abrem nessa libertação, aparece a falta de sentido, a sensação de “vazio”. Um vácuo deixado por esse espaço interior, por aquela “interioridade psicológica” que definia o que era cada sujeito e constituía a sua essência, o eixo a partir do qual se construía a subjetividade de cada um, e que agora se está deslocando em direção aos sinais emitidos pela superfície visível do corpo, da pele e das telas. Hoje parece que só é o que se vê. As diferenças entre essência e aparência se embaçaram em meio a tanto espetáculo, encenação e miragens imagéticas: não é por acaso que constantemente nos é dito que devemos cuidar da nossa imagem, como se fosse uma marca que cada um de nós deve gerenciar da forma mais eficaz possível. É preciso aparecer para ser alguém.
G1: Quais foram as etapas históricas decisivas desse processo de espetacularização da vida?
Paula Sibilia: O fenômeno contemporâneo da exibição da intimidade responde a transformações que ocorreram na cultura desde a década de 60, mas que se solidificaram nos primeiros anos do século 21. Convém observar historicamente esse processo, que hoje se manifesta não apenas nos espaços interativos da internet, mas também nos reality-shows da televisão, pois a separação entre o âmbito público e a esfera privada da existência é uma invenção histórica, uma convenção que em outras culturas não existe, ou se configura de maneiras diferentes. Mesmo nas sociedades ocidentais, essa distinção é relativamente recente: a esfera da privacidade só ganha consistência na Europa do século XVIII, com o desenvolvimento do capitalismo industrial e dos modos de vida urbanos engendrados pela modernidade. Naquele tempo começou a surgir um espaço de refúgio, destinado a cada indivíduo e à família nuclear burguesa. Nesses ambientes privados, os sujeitos modernos podiam encontrar um território a salvo das exigências e dos perigos que vigoravam no âmbito público das grandes cidades. O espaço privado se tornou o território onde transcorre a intimidade, ou seja: um pequeno e abissal universo particular, que costumava requerer silêncio, solidão e segredos. A partir do século XIX, portanto, para poder desenvolver e burilar o próprio eu, era fundamental dispor de um recinto próprio: um espaço separado do âmbito público e da intromissão alheia, por meio de sólidos muros e portas fechadas. A privacidade e a intimidade eram necessárias para poder ser alguém, para se tornar um sujeito moderno e estar em condições de produzir a própria subjetividade. É claro que esse redobrar-se na privacidade do lar, na intimidade e na interioridade psicológica de cada um, motivou também o surgimento de uma atitude de crescente passividade e indiferença com relação aos assuntos públicos e políticos. Já na segunda metade do século 20, esse panorama começou a mudar. O que está acontecendo hoje é bastante complexo. Por um lado, protegem-se cuidadosamente certos dados pessoais – especialmente financeiros e comerciais – contra possíveis e temidas invasões da privacidade, cada vez mais propiciadas pelo modo de vida contemporâneo, pela economia empresarial e seus sistemas eletrônicos de monitoramento. Por outro lado, a invasão da intimidade decorre da exposição voluntária, na visibilidade das telas globais, de aspectos da vida que antes concerniam à intimidade pessoal mais recôndita e que, por isso, devia ser pudicamente escondida entre quatro paredes.
G1: E quais são os efeitos disso?
Paula Sibilia: Os antigos pudores e rigores da moral burguesa parecem ter se diluído, pois agora se trata de mostrar-se abertamente e sem temores diante dos olhares alheios. Ao contrário, portanto, da proteção da privacidade que era fundamental no passado, essa exposição ocorre hoje com o fim explícito de se constituir como uma subjetividade visível. Trata-se de construir um eu que esteja à vista de todo o mundo – e que seja capaz de atrair as atenções dos demais. É o que acontece nos reality-shows, nos blogs e fotologs, nas redes sociais da internet como Orkut e Facebook e inclusive no Youtube. E também nas revistas de fofocas que expõem todas as peripécias, supostamente privadas, das celebridades. Em todos os cantos do nosso cotidiano, vemos como a intimidade se evade daquele espaço privado que costumava ser seu palco exclusivo e passa a invadir aquela esfera que antes se considerava pública. Por isso, antes de nos perguntarmos por que acontece tudo isto, devemos sondar quais são os tipos de eu e as formas de sociabilidade que tendem a se constituir nesses reluzentes ambientes que hoje habitamos, povoados de telas que nos conectam com milhares de pessoas e que fazem implodir as características fundamentais do tradicional espaço privado. Por que os novos ambientes hiper-conectados e hiper-expostos abandonaram a antiga lógica da privacidade para se tornar cenários translúcidos. O exemplo extremo é a “casa” do programa Big Brother: todos os quartos da casa simulam os ambientes do típico lar burguês, aqueles espaços onde costumava transcorrer a intimidade dos sujeitos modernos, mas suas paredes são transparentes, e tudo o que acontece em seu interior é minuciosamente espionado por milhões de pessoas que assistem à televisão em seus próprios lares. Podemos afirmar que uma modesta webcam caseira desempenha idêntico papel: abre uma janela virtual na tranqüilidade do lar e mostra tudo o que acontece entre essas quatro paredes a todos aqueles que desejarem dar uma olhada. Rituais semelhantes praticam aqueles que expõem todos os detalhes de suas vidas privadas em um blog ou fotolog, no Orkut, no FaceBook ou no YouTube. Daí a pergunta que eu formulo e procuro responder no meu livro: o que aconteceu com aquele homo psychologicus, com seu caráter voltado para dentro de si, que foi o modelo do homem moderno ao longo dos séculos XIX e XX, justamente porque cultivava sua intimidade e sua interioridade na privacidade do lar? Em que se converteu o velho homo privatus? Talvez ele tenha desaparecido porque já não serve mais, não é mais útil para esse projeto de sociedade no qual estamos imersos. Para ser alguém hoje em dia, já não precisamos de silêncio, solidão e privacidade, mas de um computador conectado à internet ou de uma câmera capaz de capturar nossa imagem para mostrá-la ao mundo. Hoje vivemos numa sociedade muito diferente da dos séculos 19 e 20, cujo modelo de eu interiorizado envelheceu.
G1: Alguns desses temas foram antecipados pelo pensador francês Guy Debord há 40 anos, no livro A sociedade do espetáculo…
Paula Sibilia: Tanto o livro quanto o filme homônimo de Guy Debord são obras visionárias em muitos aspectos, mas também “datadas” ou antiquadas, em outros. A principal diferença em relação ao nosso ambiente espetacularizado do século 21 é o fato de que, apesar do diagnóstico sombrio pintado pelo autor, naquele tempo parecia existir uma saída clara e perfeitamente viável para essa situação. Debord enxergava uma grande transmutação no horizonte dos anos 60, capaz de dinamitar essa sociedade do espetáculo, por ele tão execrada: a revolução, que parecia tão iminente na época como hoje soa inconcebível. A ela se dirigiam seus pensamentos, sua arte e sua ação política. Algo semelhante acontece em relação ao personagem do filme O show de Truman, de 1998: o protagonista daquele espetáculo da intimidade não consentido também encontrava, no final, uma porta que apontava para a saída daquele universo fictício. Já hoje em dia não podemos dizer a mesma coisa. Retomando as teses de Debord, hoje podemos afirmar que realmente o espetáculo se converteu “no sol que jamais se põe no império da passividade moderna”. Não há um “lado de fora” do espetáculo: tudo foi conquistado pela lógica, pelas regras e pelos códigos dessa forma de organizar e ver o mundo. Se o personagem do filme afundava no desespero ao descobrir que sua vida inteira tinha sido um mero espetáculo para olhos alheios, hoje é intensa a procura de uma vaga para participar nos reality-shows da televisão, cem vezes mais acirrada que no cobiçado vestibular para Medicina nas melhores universidades do país.
G1: É possível estabelecer uma relação entre o fim da oposição interioridade / exterioridade e o fim da oposição profundidade / superficialidade na identidade de cada um? Nesse sentido, a psicanálise e todos os saberes ligados à premissa de uma vida interior podem morrer, já que os sujeitos são cada vez mais definidos pelas aparências e referências externas?
Paula Sibilia: Sim, acredito que esses deslocamentos que estão ocorrendo revelam não apenas uma crise da psicanálise, mas também de todas as técnicas de construção de si baseadas na introspecção e na retrospecção. As novas práticas que hoje se desenvolvem, sobretudo, na Web 2.0, de algum modo vêm substituir essas modalidades mais antigas, como ferramentas mais adequadas para a construção do eu contemporâneo. Porque esses instrumentos de exposição de si e de sociabilidade permitem edificar um tipo de subjetividade mais compatível com o mundo atual, capaz de responder com mais agilidade e precisão às suas demandas de toda índole: econômicas, políticas e socioculturais. Além disso, o eu contemporâneo não se desvencilhou apenas da “interioridade psicológica”; isto é, daquela espessura que constituía a base da subjetividade moderna, mas também está se livrando da sua coerência temporal, isto é, da relação do presente com o passado, tanto individual como coletivo, daquela história vivida e acumulada na própria interioridade, que era capaz de explicar os sentidos do eu presente. Hoje não só podemos cortar as amarras que nos atavam ao passado, mas cada vez mais parece que devemos fazer isso: há uma espécie de incitação à reciclagem constante, à mudança, a uma perpétua transformação de si, que não deixa de alimentar as vorazes engrenagens do mercado. Daí a nossa sensação de presente inflado: o tempo parece congelado numa espécie de eterna atualidade.
O paradoxo das tecnologias
Ao encontrar esse vídeo no YouTube, constatei mais uma vez os paradoxos que envolvem as novas tecnologias: Elas informam ou nos bombardeiam com o excesso de informação? Nos conectam ou nos isolam? Prejudicam a nossa cognição ou desenvolvem as nossas aptidões? São ferramentas necessárias ou estão causando dependência e estresse? Notem que ambos entrevistados, incluindo uma psicóloga, destacam pontos positivos e negativos das tecnologias e suas afirmações acabam se contradizendo.
A intimidade como espetáculo
A antropóloga argentina Paula Sibilia fala a respeito do excesso de exposição da intimidade na contemporaneidade. Veja o vídeo:
O impacto das tecnologias sobre as relações pessoais
O programa "Espaço Aberto - Ciência e Tecnologia" da Globo News fez uma reportagem a respeito do impacto das tecnologias sobre as relações pessoais. Veja o vídeo:
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