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Entrevista com William Powers sobre reação às novas tecnologias

Na peça de Shakespeare, quando o fantasma do pai pede que se lembre dele, Hamlet promete apagar todos os registros "da tábua da minha mente" para se concentrar na memória do pai --e na vingança de sua morte.

A tábua, "table" no original, é "O BlackBerry de Hamlet", título do livro de William Powers que sai no Brasil um ano e meio após entrar para os mais vendidos do "New York Times", nos EUA.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com Powers:

Seu livro abre com Sócrates. No diálogo que você menciona, ele fala contra a palavra escrita e Fedro fala contra a cidade, o ambiente. Essas visões têm paralelo com os dias de hoje?

Sim. Comecei a parte filosófica do livro com esse diálogo porque ele levanta temas que acredito que são importantes hoje.

Um é que nós somos criaturas sociais, queremos conhecer nosso ambiente e nosso mundo e, para prosperar nele, precisamos de informação e de outras pessoas. Sócrates, em seu amor pela cidade e pela comunicação oral, é um grande exemplo disso. Você pode dizer que ele era viciado na palavra falada. Mas, da maneira como Fedro entende, em parte por causa do conselho que ouve de um médico, nós também precisamos de alguma distância de nossa conectividade, de modo a poder fazer algo útil com ela. Para refletir sobre ela; para talvez levar o mundo em que vivemos a uma situação melhor; para refletir sobre aquelas informações e fazer algo novo com elas e levar de volta ao mundo.


Isso é o que a caminhada simboliza para mim, é a importância de manter alguma distância da multidão nas nossas vidas. Para mim, a multidão de Atenas, a cidade movimentada, é uma espécie de metáfora ou substituto para a movimentada multidão digital em que estamos navegando hoje, todos os dias.

Mas Sócrates também é cético com a novíssima tecnologia que chegou, a palavra escrita, e para mim isso é um lembrete de que, mesmo quando buscamos nos distanciar da tecnologia, não devemos ter a mente fechada. Não devemos temer a tecnologia da maneira como algumas pessoas temem hoje.

Não sei quanto ao Brasil, mas aqui temos pessoas que são basicamente luditas, que acreditam que o mundo está sendo destruído pela conectividade digital. Eu não acredito nisso, sou um otimista, e queria mostrar que mesmo alguém tão brilhante como Sócrates poderia entender errado. Essa é uma espécie de alerta na história: tenha consciência de que não devemos ver só o lado ruim da nova tecnologia, mas também o lado bom, os benefícios. O que, é claro, Platão viu, porque ele decidiu usar exatamente a tecnologia que Sócrates condena, para registrar o diálogo.

A metáfora mais interessante, ao menos para mim, é exatamente aquela que você leva ao título, o BlackBerry de Hamlet. A "tábua" mencionada já era uma metáfora em si mesma, para a visão de Shakespeare da nova tecnologia da época, que era a imprensa.
Sim.

É a mesma ideia ou você vê diferença com o que menciona de Platão?
Eu falo bastante sobre o livro, agora já tem um ano e meio que venho tratando publicamente dele, e na verdade essa é a mais difícil de abordar, embora seja o título, porque as ideias que levanto naquele capítulo são um pouco sutis. Vou tentar abordar os diferentes níveis que trabalho nele.

Em primeiro lugar, sim, a tábua de Hamlet faz um paralelo com o nosso próprio tempo tecnológico. É um aparelho, uma nova invenção que as pessoas amavam e na qual eram viciadas, durante uma revolução tecnológica. O que é diferente é que ela é uma combinação entre o velho e o novo, usa uma tecnologia, a escrita à mão, que as pessoas pensavam que morreria, na era da imprensa. E que na verdade se tornou mais útil, num tempo em que as pessoas se sentiam oprimidas pelo peso de todos aqueles impressos sendo empilhados ao seu redor. E pela incapacidade de estar a par de tudo, um excesso [overload] de informação, digamos.

Elas podiam escrever algo temporariamente e fazer com que desaparecesse, trazendo portanto alguma ordem às suas vidas malucas e se mostrando capazes de navegar a revolução mais efetivamente. Nesse sentido, era diferente dos nossos aparelhos, que tendem ao excesso hoje. E é um modelo de como a tecnologia pode nos ajudar a ir para a frente, para um quadro melhor, e tornar a carga um pouco mais leve.

Em segundo lugar, eu simplesmente gosto da linguagem metafórica que Shakespeare usa, quando Hamlet fala de seu "globo alterado" e de "apagar a tábua da mente", tentando se livrar de toda aquela desordem. Isso me fez lembrar tanto os desafios que enfrentamos, com nossas distrações de hoje, como o desejo que temos de ser capazes de aliviar a carga e tornar a vida um pouco mais administrável.

Todas essas coisas estão de certa maneira empacotadas nesse capítulo. Sou muito cético das pessoas que dizem que o futuro será digital e não haverá utilidade para velhas tecnologia como o papel impresso. Realmente acho que não é o caso. Portanto, a maneira como o BlackBerry de Hamlet, a tábua, usa a velha tecnologia da escrita à mão tem a ver com isso também.

O subtítulo de seu estudo original em Harvard, em 2006, era "Por que o papel é eterno". Isso não o torna também um ludita?
Não, não. No ensaio eu argumento que a razão por que o papel será eterno, na minha opinião, é que as tecnologias digitais vão evoluir, de maneira que farão por nós o que o papel sempre fez. O papel pode até desaparecer, mas será como se não percebêssemos, porque teremos aparelhos que trabalham por nós da mesma maneira que o papel faz.

Por exemplo, existe essa visão de um e-book que terá centenas de páginas e que você vai tocar e sentir como um papel, virar as páginas com as mãos. O que seria muito útil, penso eu, porque somos seres corporificados e é bom trabalhar com uma tecnologia corporificada. E o e-book será atualizável e você poderá transformá-lo em qualquer livro que queira. Portanto, acredito que estamos caminhando para um futuro que, de forma irônica, será moldado pela nossa experiência com o impresso.

Ainda que gostemos de pensar que estamos vivendo uma ruptura com o passado, eu vejo mais como uma evolução contínua, uma tecnologia se sobrepondo à outra. É a ideia que eu estava querendo lançar com o ensaio, que eu imaginava que teria um papel muito maior no livro. No rascunho, era um capítulo inteiro. Mas meu editor ficava dizendo que ele não cabia no livro e eu deveria deixá-lo como ensaio. Foi o que decidi fazer, no fim.

Li um texto na "New Yorker" que elogia, mas também questiona seu livro. Pega a parte que oferece uma saída ao vício tecnológico --desligar tudo o que é digital-- e aponta como contradição que você aceita manter a TV ligada. A televisão não assusta mais, como antes?
Em primeiro lugar, sobre esse texto, eu fiquei feliz de ser discutido na "New Yorker", mas não penso que o autor, Adam Gopnik, leu o livro todo, porque me classifica na categoria errada, das pessoas que gostariam que as novas tecnologias nunca tivessem aparecido. E eu penso que sou de outra categoria, das pessoas que acreditam que estavamos atravessando um ciclo que sempre atravessamos e que é algo normal. Acho que o livro foi mal interpretado.

Mas sim, quanto à questão da televisão, como eu nasci nos anos 60, para mim ela é perfeitamente natural, não uma ruptura. E acredito que esse é um aspecto natural de todo período que você atravessa. As pessoas que nascem com a tecnologia se ajustam mais facilmente.

Ouço muito uma pergunta, "isso não significa que os jovens de hoje não têm problemas com o excesso de informação e com o vício digital?". E eu sempre contraponho que encontro muitos jovens que se sentem conectados com o livro, que agora é parte do currículo de um monte de universidades. Porque nossa atenção só vai até uma certa capacidade de expansão, pela natureza do cérebro. Isso significa que, em algum nível, todos estamos tendo de nos ajustar a essa nova inundação de informação. É uma inundação muito rica, com grande potencial, mas também um desafio.

Você esteve no último festival South by Southwest, que priorizou essa corrida para lidar com o excesso de informação digital.
Sim.

Neste ano, além do excesso de informação, o SXSW deve focar também realidade aumentada ["augmented reality"] e inteligência expandida, esse tipo de discussão. Como você vê essa questão, da tecnologia tornando nossas mentes e nossas realidades maiores e sem limites?
Acredito que estamos no caminho de um sentido expandido de realidade, de uma conexão expandida com a realidade, graças às nossas ferramentas. Falo de uma dessas visões no livro, em que as paredes dos prédios serão cabeadas e a capacidade de conexão com a informação estará ao nosso redor _e portanto será como se parte de nossas mentes estivesse lá fora, no mundo. Teremos uma espécie de consciência expandida, o que vejo como uma possibilidade maravilhosa. Acredito que chegaremos lá mais efetivamente se nos mantivermos com os pés no chão.

Lembre-se que também trazemos muito poder e potencial à equação. As máquinas são extraordinárias e vão nos ajudar, mas muitas vezes não levamos em conta que a mente humana é o aparelho mais complexo e poderoso criado no Universo, de que temos notícia. E somos tão importantes para a equação quanto qualquer computador. Daí essa ideia de equilíbrio entre nossa vidas digitais e não digitais ser tão crucial para mim. Porque queremos manter nossas mentes tão arraigadas na realidade e trazer nossas próprias conclusões e conexões à mesa, para que a realidade expandida seja tão rica quanto possível.

Ao mesmo tempo, você está agora mergulhado na tecnologia, com a Bluefin Labs.
Vou trabalhar nesse projeto ao longo do próximo ano. É uma startup de tecnologia, que saiu do MIT, e criou novas maneiras de identificar padrões e extrair significados da conversação de mídia social, especialmente do Twitter. Vou aplicar a tecnologia na campanha presidencial americana. Será uma nova maneira de ler o público. O livro tem uma série de mensagens, e uma delas é sobre o potencial criativo do digital. Vejo esse projeto como uma tentativa de ir mais fundo, como escrevo no livro, de levar a tecnologia a lugares mais profundos.

Publicado em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1046403-livro-explora-reacao-as-novas-tecnologias.shtml

Cresce debate sobre aspectos nocivos de viver o tempo todo na internet


Por Nelson de Sá

Há dois meses, falando a estudantes em Stanford, Mark Zuckerberg desabafou que, se voltasse no tempo para recomeçar o Facebook, ficaria em Boston, longe do Vale do Silício, dos fundos de "venture capital" e da "cultura de curto prazo". Ele tem um problema: a abertura de capital do Facebook se aproxima e a rede social dá sinais de, nos EUA, ter batido no teto.

As visitas cresceram 10% de outubro de 2010 ao mesmo mês de 2011, segundo a comScore, contra 56% de aumento no ano anterior.

Em livros e artigos, cresce debate sobre os aspectos nocivos de viver o tempo todo na internet
Saturação das redes sociais ainda está longe do Brasil, onde elas continuam a crescer
Já se fala em "saturação social", como publicou o "New York Times". Segundo depoimento de David Carr, repórter e colunista da área cultural do "NYT", 2011 foi o primeiro ano em que ele viu sua produtividade cair por causa de seu consumo de mídia. E, para 2012, Carr diz estar diante da escolha entre cortar passeios de bicicleta ou "alguns desses hábitos digitais que estão me comendo vivo".

Nas três primeiras semanas, nada. "Meu Twitter ainda está me comendo vivo, embora eu tenha tido certo sucesso em desligá-lo por um tempo", diz ele à Folha. "Na maior parte do tempo, porém, é como ter um cão amigável que quer ser sempre acariciado, levado para passear. Em outras palavras, continua me deixando louco."

Pouco a pouco, os americanos, bem como os europeus, restringem a interação on-line e se tornam "espectadores", segundo o relatório Adoção de Mídia Social em 2011, da Forrester Research. Só um terço dos americanos e europeus atualiza seus perfis em redes sociais, Twitter inclusive, toda semana.

Já nos emergentes, Brasil entre eles, dois terços dos internautas atualizam seus perfis semanalmente. Nos centros urbanos, três quartos.

O relatório visa ajudar em estratégias de negócios, alertando de que "essas tendências apresentam um desafio para o Facebook, conforme se aproxima de seu IPO [oferta pública de ações]".

Aos estrategistas de marketing, Gina Sverdlov, da Forrester, escreve: "Se você tem como alvo usuários nos mercados ocidentais, priorize dar a eles conteúdo que possam simplesmente ler ou ver. Não espere muita interação dos consumidores ocidentais".

A reação vai além das redes sociais. No final do ano, a revista "Travel + Leisure" publicou uma edição sobre "o futuro das viagens", ouvindo futuristas e proclamando que "o maior luxo do século 21 será escapar da rede" em "black hole resorts", refúgios buracos negros, com "total ausência de internet --até as paredes serão impenetráveis ao acesso sem fio".

Segundo Judith Kleine Holthaus, ex-Future Foundation, hoje responsável por estratégia e insight na McDonald's Corp., "sejam instalados no alto de montanhas ou em vilas exóticas, os buracos negros serão o ápice do movimento 'slow food' [a favor de produção camponesa], 'slow travel', 'slow' tudo --o máximo em se livrar de tudo".

Na mesma direção, espalham-se pela Ásia os centros de recuperação de viciados em internet. Na Coreia, já seriam 200. Na China, 300.

Ganham repercussão nos EUA os softwares criados por Fred Stutzman, da Universidade Carnegie Mellon, como o Freedom, um "software de produtividade" que restringe o acesso à web por um determinado número de horas.

E no último ano e meio acumularam-se os livros com questionamentos aos efeitos da internet: ela mina a criatividade, escreve Jaron Lanier em "Gadget - Você Não É um Aplicativo" (ed. Saraiva); sufoca os momentos de quietude, segundo "Hamlet's Blackberry", de William Powers, inédito no Brasil; e afasta as pessoas com ferramentas que serviriam para aproximá-las, segundo "Alone Together", de Sherry Turkle, do MIT, também inédito por aqui.

O porta-bandeira nas críticas é Nicholas Carr, autor três anos atrás de um artigo de grande repercussão na revista "Atlantic", "Is Google Making Us Stoopid?" ("O Google está nos tornando burros?"), com argumentos que depois ampliou em "A Geração Artificial" (ed. Agir). Dele, na edição mais recente: "O que são os smartphones senão coleiras high-tech?".

Link da matéria: http://www1.folha.uol.com.br/tec/1040056-cresce-debate-sobre-aspectos-nocivos-de-viver-o-tempo-todo-na-internet.shtml

Livro explora reação às novas tecnologias


Nelson de Sá, da Folha de São Paulo, entrevista William Powers, autor do livro O BlackBerry de Hamlet:

Folha - Seu livro abre com Sócrates. No diálogo que você menciona, ele fala contra a palavra escrita e Fedro fala contra a cidade, o ambiente. Essas visões têm paralelo com os dias de hoje?

William Powers: Sim. Comecei a parte filosófica do livro com esse diálogo porque ele levanta temas que acredito que são importantes hoje. Um é que nós somos criaturas sociais, queremos conhecer nosso ambiente e nosso mundo e, para prosperar nele, precisamos de informação e de outras pessoas. Sócrates, em seu amor pela cidade e pela comunicação oral, é um grande exemplo disso. Você pode dizer que ele era viciado na palavra falada. Mas, da maneira como Fedro entende, em parte por causa do conselho que ouve de um médico, nós também precisamos de alguma distância de nossa conectividade, de modo a poder fazer algo útil com ela. Para refletir sobre ela; para talvez levar o mundo em que vivemos a uma situação melhor; para refletir sobre aquelas informações e fazer algo novo com elas e levar de volta ao mundo.

Isso é o que a caminhada simboliza para mim, é a importância de manter alguma distância da multidão nas nossas vidas. Para mim, a multidão de Atenas, a cidade movimentada, é uma espécie de metáfora ou substituto para a movimentada multidão digital em que estamos navegando hoje, todos os dias.

Mas Sócrates também é cético com a novíssima tecnologia que chegou, a palavra escrita, e para mim isso é um lembrete de que, mesmo quando buscamos nos distanciar da tecnologia, não devemos ter a mente fechada. Não devemos temer a tecnologia da maneira como algumas pessoas temem hoje.

Não sei quanto ao Brasil, mas aqui temos pessoas que são basicamente luditas, que acreditam que o mundo está sendo destruído pela conectividade digital. Eu não acredito nisso, sou um otimista, e queria mostrar que mesmo alguém tão brilhante como Sócrates poderia entender errado. Essa é uma espécie de alerta na história: tenha consciência de que não devemos ver só o lado ruim da nova tecnologia, mas também o lado bom, os benefícios. O que, é claro, Platão viu, porque ele decidiu usar exatamente a tecnologia que Sócrates condena, para registrar o diálogo.

Folha - A metáfora mais interessante, ao menos para mim, é exatamente aquela que você leva ao título, o BlackBerry de Hamlet. A "tábua" mencionada já era uma metáfora em si mesma, para a visão de Shakespeare da nova tecnologia da época, que era a imprensa.
William Powers: Sim.

Folha - É a mesma ideia ou você vê diferença com o que menciona de Platão?
William Powers: Eu falo bastante sobre o livro, agora já tem um ano e meio que venho tratando publicamente dele, e na verdade essa é a mais difícil de abordar, embora seja o título, porque as ideias que levanto naquele capítulo são um pouco sutis. Vou tentar abordar os diferentes níveis que trabalho nele.

Em primeiro lugar, sim, a tábua de Hamlet faz um paralelo com o nosso próprio tempo tecnológico. É um aparelho, uma nova invenção que as pessoas amavam e na qual eram viciadas, durante uma revolução tecnológica. O que é diferente é que ela é uma combinação entre o velho e o novo, usa uma tecnologia, a escrita à mão, que as pessoas pensavam que morreria, na era da imprensa. E que na verdade se tornou mais útil, num tempo em que as pessoas se sentiam oprimidas pelo peso de todos aqueles impressos sendo empilhados ao seu redor. E pela incapacidade de estar a par de tudo, um excesso [overload] de informação, digamos.

Elas podiam escrever algo temporariamente e fazer com que desaparecesse, trazendo portanto alguma ordem às suas vidas malucas e se mostrando capazes de navegar a revolução mais efetivamente. Nesse sentido, era diferente dos nossos aparelhos, que tendem ao excesso hoje. E é um modelo de como a tecnologia pode nos ajudar a ir para a frente, para um quadro melhor, e tornar a carga um pouco mais leve.

Em segundo lugar, eu simplesmente gosto da linguagem metafórica que Shakespeare usa, quando Hamlet fala de seu "globo alterado" e de "apagar a tábua da mente", tentando se livrar de toda aquela desordem. Isso me fez lembrar tanto os desafios que enfrentamos, com nossas distrações de hoje, como o desejo que temos de ser capazes de aliviar a carga e tornar a vida um pouco mais administrável.

Todas essas coisas estão de certa maneira empacotadas nesse capítulo. Sou muito cético das pessoas que dizem que o futuro será digital e não haverá utilidade para velhas tecnologia como o papel impresso. Realmente acho que não é o caso. Portanto, a maneira como o BlackBerry de Hamlet, a tábua, usa a velha tecnologia da escrita à mão tem a ver com isso também.

Folha - O subtítulo de seu estudo original em Harvard, em 2006, era "Por que o papel é eterno". Isso não o torna também um ludita?
William Powers: Não, não. No ensaio eu argumento que a razão por que o papel será eterno, na minha opinião, é que as tecnologias digitais vão evoluir, de maneira que farão por nós o que o papel sempre fez. O papel pode até desaparecer, mas será como se não percebêssemos, porque teremos aparelhos que trabalham por nós da mesma maneira que o papel faz.

Por exemplo, existe essa visão de um e-book que terá centenas de páginas e que você vai tocar e sentir como um papel, virar as páginas com as mãos. O que seria muito útil, penso eu, porque somos seres corporificados e é bom trabalhar com uma tecnologia corporificada. E o e-book será atualizável e você poderá transformá-lo em qualquer livro que queira. Portanto, acredito que estamos caminhando para um futuro que, de forma irônica, será moldado pela nossa experiência com o impresso.

Ainda que gostemos de pensar que estamos vivendo uma ruptura com o passado, eu vejo mais como uma evolução contínua, uma tecnologia se sobrepondo à outra. É a ideia que eu estava querendo lançar com o ensaio, que eu imaginava que teria um papel muito maior no livro. No rascunho, era um capítulo inteiro. Mas meu editor ficava dizendo que ele não cabia no livro e eu deveria deixá-lo como ensaio. Foi o que decidi fazer, no fim.

Folha - Li um texto na "New Yorker" que elogia, mas também questiona seu livro. Pega a parte que oferece uma saída ao vício tecnológico - desligar tudo o que é digital - e aponta como contradição que você aceita manter a TV ligada. A televisão não assusta mais, como antes?
William Powers: Em primeiro lugar, sobre esse texto, eu fiquei feliz de ser discutido na "New Yorker", mas não penso que o autor, Adam Gopnik, leu o livro todo, porque me classifica na categoria errada, das pessoas que gostariam que as novas tecnologias nunca tivessem aparecido. E eu penso que sou de outra categoria, das pessoas que acreditam que estavamos atravessando um ciclo que sempre atravessamos e que é algo normal. Acho que o livro foi mal interpretado.

Mas sim, quanto à questão da televisão, como eu nasci nos anos 60, para mim ela é perfeitamente natural, não uma ruptura. E acredito que esse é um aspecto natural de todo período que você atravessa. As pessoas que nascem com a tecnologia se ajustam mais facilmente.

Ouço muito uma pergunta, "isso não significa que os jovens de hoje não têm problemas com o excesso de informação e com o vício digital?". E eu sempre contraponho que encontro muitos jovens que se sentem conectados com o livro, que agora é parte do currículo de um monte de universidades. Porque nossa atenção só vai até uma certa capacidade de expansão, pela natureza do cérebro. Isso significa que, em algum nível, todos estamos tendo de nos ajustar a essa nova inundação de informação. É uma inundação muito rica, com grande potencial, mas também um desafio.

Folha - Você esteve no último festival South by Southwest, que priorizou essa corrida para lidar com o excesso de informação digital.
William Powers: Sim.

Folha - Neste ano, além do excesso de informação, o SXSW deve focar também realidade aumentada ["augmented reality"] e inteligência expandida, esse tipo de discussão. Como você vê essa questão, da tecnologia tornando nossas mentes e nossas realidades maiores e sem limites?
William Powers: Acredito que estamos no caminho de um sentido expandido de realidade, de uma conexão expandida com a realidade, graças às nossas ferramentas. Falo de uma dessas visões no livro, em que as paredes dos prédios serão cabeadas e a capacidade de conexão com a informação estará ao nosso redor _e portanto será como se parte de nossas mentes estivesse lá fora, no mundo. Teremos uma espécie de consciência expandida, o que vejo como uma possibilidade maravilhosa. Acredito que chegaremos lá mais efetivamente se nos mantivermos com os pés no chão.

Lembre-se que também trazemos muito poder e potencial à equação. As máquinas são extraordinárias e vão nos ajudar, mas muitas vezes não levamos em conta que a mente humana é o aparelho mais complexo e poderoso criado no Universo, de que temos notícia. E somos tão importantes para a equação quanto qualquer computador. Daí essa ideia de equilíbrio entre nossa vidas digitais e não digitais ser tão crucial para mim. Porque queremos manter nossas mentes tão arraigadas na realidade e trazer nossas próprias conclusões e conexões à mesa, para que a realidade expandida seja tão rica quanto possível.

Folha - Ao mesmo tempo, você está agora mergulhado na tecnologia, com a Bluefin Labs.
William Powers: Vou trabalhar nesse projeto ao longo do próximo ano. É uma startup de tecnologia, que saiu do MIT, e criou novas maneiras de identificar padrões e extrair significados da conversação de mídia social, especialmente do Twitter. Vou aplicar a tecnologia na campanha presidencial americana. Será uma nova maneira de ler o público. O livro tem uma série de mensagens, e uma delas é sobre o potencial criativo do digital. Vejo esse projeto como uma tentativa de ir mais fundo, como escrevo no livro, de levar a tecnologia a lugares mais profundos.

Link da entrevista: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1046403-livro-explora-reacao-as-novas-tecnologias.shtml

O BlackBerry de Hamlet

Computadores, celulares, tablets: maravilhas da tecnologia que nos mantêm conectados e em sintonia com tudo o que está acontecendo no planeta. Mas o que acontece quando o engajamento nas novas formas de comunicação demanda tanta atenção que nos priva do que é realmente importante? Para resolver esse impasse, é preciso um novo modo de pensar, uma filosofia prática para um cotidiano repleto de telas. Recorrendo a alguns dos pensadores mais brilhantes da história – de Platão a Thoreau, passando por Shakespeare – O BlackBerry de Hamlet demonstra que a conectividade digital só é útil se conseguirmos descolar a vida real da vida virtual. Alegre, original e instigante, O BlackBerry de Hamlet nos desafia a repensar nosso dia a dia e a retomar o controle da nossa vida.


Título: O BlackBerry de Hamlet
Autor: William Powers
Editora: Alaúde
Valor: R$34,90